“Não são os sonhos ruins que me deixam
triste, e sim os felizes. É horrível acordar
e perceber que eram apenas sonhos”
Faz tantos anos que trabalho nesta mansão que não consigo sequer lembrar quando comecei. Fui acolhido pelo senho Thomas quando ainda era jovem e o servi – e à sua esposa – enquanto viveram. Hoje tenho o prazer de servir ao patrão Bruce, que vi crescer e se transformar no homem mais digno que se possa imaginar.
A história que hoje conto é sobre a única vez em que vi meu patrão chorar após a morte dos pais. Ele estava exausto, bastante cansado e levemente adoentado fazia semanas. Mas como todo jovem, ele sempre achava que isso não era nada, que sempre podia passar mais uma noite por aí, fazendo o que ele faz. Pelo visto, os – como é que os jovens chamam mesmo? – “pegas” de ontem com a senhorita Kyle o exauriram. Essa noite ele dormiu até mais tarde. E acordou gritando pela mãe, pela patroa Martha – que Deus a tenha! – pela primeira vez, após mais de vinte anos.
Ao entrar no quarto, o que vi não era o homem que pagava meu salário e que criei como se filho meu fosse. O que vi foi uma criança de trinta e dois anos, sentado no chão, enrolado com o lençol e chorando e soluçando. Isso foi o que ele me disse quando conseguiu se recuperar:
- Alfred, velho amigo, eu tive um pesadelo. Sonhei que meus pais morriam, mas que era tudo diferente. Que ficamos pobres – nesse ponto fui obrigado a intervir, pois nem se quiséssemos poderíamos dilacerar a fortuna angariada pelo patrão Thomas – Sabe, pobres, mas felizes. Você, mesmo com recursos bem mais parcos, cuidava de mim como nenhum pai conseguiria – exatamente como fez. Eu comecei a trabalhar cedo, como um reles operário de uma fábrica qualquer. E achei o Amor de Minha Vida.
“Ela era perfeita, Alfred. Linda, maravilhosa. E me amava. Ela. Me. Amava. E eu sabia que me amava pelo que eu era e não pelo que eu tinha, pois eu não tinha nada. Ela. Me. Amava. Deus, Alfred, como isso dói. Fomos felizes, eu, ela e você. Tivemos filhos, dois, e você me ajudou a criá-los tão bem como me criou.”
Dizendo isso, ele se levantou, enxugou as lágrimas e parecia que não tinha chorado. Desceu, pegou sua roupa no armário e saiu no seu carro preferido. Hoje, eu tenho pena daqueles que cruzarem seu caminho.
– Alfred Pennyworth
(personagens são copyright e trademark da DC Comics,
uma divisão da Time-Warner. E o sonho aconteceu comigo,
embora eu estivesse acordado quando o tive)