Amor e memórias

Estive imaginando: O que é o amor? Obviamente, não vou perder muito tempo aqui falando sobre isso, afinal todos devem saber o que é. E pros que precisam de conceitos ou exemplos, peço que se dirijam aos grandes nomes da poesia universal ou da música brasileira. Eles, com certeza, vão responder essa pergunta melhor do que eu.

Sendo assim, já começamos a delimitar o conteúdo do texto: sabemos sobre o que NÃO iremos falar, o que já é grande coisa. Também não vamos tratar aqui de um caso amoroso meu específico, por ser totalmente desnecessário. Vamos falar sobre o momento em que você percebe que está apaixonado.

Saber o exato momento em que este sentimento começou é bastante difícil, exceto, claro, se estivermos falando de um caso de amor a primeira vista, mas isso é tão raro de acontecer que prefiro descartar essa hipótese. Vamos imaginar você, um fulano qualquer, que aqui chamarei de “Paulo” e sua amiga de longa data, “Júlia” (esses nomes não são aleatórios. São os nomes que utilizei pro conto sorvete, embora, naquele conto, esses nomes não signifiquem nada). Imaginemos que vocês são amigos de infância/se conheceram na faculdade/no trabalho/num barzinho/em qualquer lugar. Enfim, não importa. O que importa é que vocês se conheceram, possuem quase a mesma idade e gostos em comum (exceto pelo fato de que você gosta de mulheres e ela de homens, e alguns outros detalhes). Embora não sejam lindos, são razoavelmente bonitos, a ponto inclusive de serem desejados por algumas pessoas, mas, até onde você saiba, não se desejam mutuamente. Por quê? Porque é esse parece ser um dos improváveis casos de amizade homem-mulher, sem segundas intenções.

Sei lá. Talvez os dois sejam um pouco nerds e gostam de conversar sobre filmes que ninguém mais viu. Ou simplesmente detestem forró, o que os torna excluídos em relação a um bom percentual da “maldita raça humana” (palavras de Mark Twain). Talvez simplesmente sintam uma certa admiração (não sexual) por um amigo(a) em comum e passam muito tempo falando dele(a). Enfim, o que importa é que vocês passam muito tempo juntos, entende?

As coisas tão de um jeito que você só sente prazer em beber se a “Júlia” estiver do seu lado, com um copo cheio também. Ela assiste um filme com as amigas e diz que é a cara do “amigo Paulo” dela. Embora não percebam, pensam um no outro (ou só você pensa nela, ou vice-versa) quase todas as horas do dia. O negócio tá tão assim que alguns amigos talvez já tenham percebido, mas resolveram deixar vocês descobrirem que se gostam sozinhos (ou, o que é mais comum, numa mesa de bar com seu amigo “Daniel”, sem a presença da Júlia, depois de você falar nela umas três vezes, ele insinua que você a ama. Obviamente, a idéia é logo descartada por você).

Enfim, acho que deu pra entender mais ou menos o tipo de situação que eu estou descrevendo. Teus amigos todos já perceberam que você “arriou os quatro pneus e o estepe” pro lado dela, embora você diga que é bobagem, que estão “implicando”, que com ela é apenas uma boa amizade e nada mais. Isso é extremamente comum. Vamos agora pro “título do post”.

Normalmente você se toca toca que ama essa amiga quando ela se declara ou quando algum amigo te prova por A+B. Mas, a meu ver, descobre que ama quando a memória é alterada. Deixe-me explicar: você passou inúmeros momentos com sua amada. Comeram pizza, beberam, talvez tenham dançado, falaram mal de alguém, assistiram filmes juntos, leram (não ao mesmo tempo) o mesmo livro. Talvez tenham chegado ao ponto de um lugar pro outro de madrugada pra avisar do ótimo filme que tava passando no corujão (off: incrível que na tv as coisas boas só passam a noite). Enfim, compartilharam diversos momentos, mas nada que você tenha achado anormal. Até hoje.

Hoje, ao assistir uma comédia que já tinha visto com ela, lembrou do modo como ela ria, aquele riso frouxo, quase uma gargalhada. Ou talvez fosse um riso mais contido, sei lá. Sei que o filme te fez lembrar do modo como ela sorria. Ao jantar, lembrou do gostinho especial do feijão que comeu na casa dela no dia que ficou lá até tarde, embora, no dia propriamente dito, você não tenha sentido nada de tão especial em relação ao feijão. Ouviu uma música e instantaneamente veio à mente algo que fizeram (embora a música não estivesse tocando no dia).

Isto, meu amigo, é que chamo de “alteração de memória”: de repente, você se lembra de coisas que aconteceram, que sempre costuma lembrar, mas com uma riqueza maior de detalhes. Porra, de repente você acha até que conseguiria identificar o perfume que ela usava quando te deu um abraço de despedida meses atrás (talvez ela nem estivesse usando o perfume, mas de repente lembrar dela se tornou tão importante que você passa a imaginar detalhes que ninguém poderia desmentir).

É exatamente neste momento, amigo, em que suas memórias te traem de modo inverso (pois você não esquece e sim lembra) que pode ter certeza estar apaixonado. Sabe aquela garotinha que cresceu com você? Que você a conhece desde os cinco anos? Pois é… Hoje você lembra que a primeira vez que a achou bonita foi anos atrás, quando ambos tinham nove, dez anos e estavam brincando na chuva. Ela cansou de correr, sentou numa calçada e ficou respirando, meio ofegante e você observava ao longe. Hoje você lembra com perfeição dos cabelos molhados dela, do sobe-e-desce de seu peito, do brilho em seus olhos. Tenho certeza que se tivesse te perguntando meses atrás sobre esta cena você mal lembraria dela…

-- João Octávio
alguém que já teve a "memória alterada"
vezes demais pra reconhecer o sintoma...

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