Vinho, azeitonas, dúvidas

atenção: texto não recomendado para pessoas sensíveis. Esteja avisado.

Ele bem sabia que podia não haver amanhã. Pior: ele sabia que haveria um amanhã, e alguns outros poucos, assim como sabia que seria melhor que não houvesse. Mesmo assim, ele estava em paz, tinha um propósito, uma missão. Se tinha que morrer, não faria mal. Todos os homens morrem, mas poucos se tornam mártires.

Sim, um mártir. Era isso o que ele seria para alguns nos anos vindouros. Um verdadeiro motivo para guerras, revoluções. Mas, acima de tudo, ele pensava, um motivo para o fim das guerras. Mesmo sabendo que sua morte seria necessária, gloriosa, ele estava amedrontado. Sim, bastante amedrontado. Pois, mesmo dizendo que não, ele ainda era um homem e sabia da longa tortura que o afligiria nos dias por vir.

O pior é saber de tudo, TUDO, e nada poder fazer para mudar, ele pensava consigo. Que sua morte ira mudar algo ele sabia, mas seriam tais mudanças verdadeiras, merecedoras de seu sacrifício?

O que importa é que ele sabia que aquela seria sua última noite de paz e que estava com medo. Assim, reunindo-se com seus amigos, não aquela corja crescente que o seguia e adorava por onde passava, mas apenas por seu círculo pessoal, pelos primeiros amigos, fez o que todo homem sensato faria em tal situação: bebeu.

Sim, ele bebeu. E muito. Saiu da cidade, escolheu um local arborizado para tentar suavizar o calor das redondezas, sentou-se e começou a beber e comer com os amigos. As árvores sob as quais se sentaram, não por acaso, davam como fruto azeitonas. Vinho, para diminuir a tristeza da vida, e peixes e azeitonas para tira-gosto. Pena que sua amada, sua doce e proibida amada, não poderia estar lá. Ah, ele pensou, se ao menos as coisas pudessem ser diferentes, se eu pudesse ficar com ela, em paz, e esquecer essa guerra, essa perseguição… Mas ele sabia que vidas simples como a que queria sempre seriam negadas para homens como ele. Por tanto, sem alternativas, bebeu. Assim transcorreu o final da tarde e boa parte da noite.

Quando todos já estavam tão bêbados que dormiam ao relento, ele levantou-se, ainda temeroso em relação ao futuro. Trôpego, caminhou entre as oliveiras. Trêbado, começou a maldizer tudo. O povo de sua cidade, o povo que queria ser salvo e o que não queria, seus amigos, seus pobres e fracos e humanos amigos, seu pai. “Pai, Pai, por quê? Por quê?” ele gritava e gritava. Horas depois que começou, subitamente acabou: aceitando seu destino, percebendo que o aceitara éons atrás, reassumiu seu semblante sério, sóbrio agora, e voltou para onde deixou seus amigos. Lá, conforme esperado, seu melhor amigo, seu mais culto amigo, esperava com o exército que tanto queria o queria prender. Sua função: trair. Mostrar onde ele estava e, de todos lá, quem deveria ser preso. E, com um beijo, o fez. Assim começou a mais longa e dolorosa semana já registrada em nossos anais.


nota: sei que muitos vão se perguntar qual o sentido do texto, já que a história de Jesus é bastante conhecida, mas dia desses me peguei pensando nele como um Jesus Humano, cheio de dúvidas, que também era Deus, que sabia o porvir. Fico imaginando que qualquer um, em seu local, teria se comportado como descrevi aqui: tomado um porre daqueles. Espero que ninguém proponha minha excomunhão ou me chame de herege.

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