O Mago

Essa é a história de Daniel Soares de Brito. Brasileiro, natural de Juazeiro do Norte – CE. Filho único de Mário Cavalcante de Brito e dona Inês Soares de Brito (falecidos). Trinta e oito anos, sem filhos, sem parentes próximos, sem amigos íntimos, sem esposa, namorada ou pretendentes conhecidas. Advogado, professor de direito civil na Universidade Regional do Cariri. Considerado “bem de vida” pelos habitantes locais. Tímido. Enfim, apenas um sujeito normal, com uma vida que até seria mundana ao extremo se não fosse um fato notório: Daniel é um mago.

Sim, Daniel Soares de Brito é um dos poucos verdadeiros praticantes da magia. Não, não esse tipo de “magia” que se vê nos terreiros de macumba com pais-de-santo, não o tipo de magia que se tem nas quiromantes, oneiromantes ou qualquer coisa do gênero. Ele é do tipo de mago capaz de realmente alterar a realidade. Do que poderia fazer chover, se quisesse (na verdade, quando ele está de mal-humor, é comum que o tempo ao seu redor feche). Do tipo que não apenas fala com espíritos, mas também os toca. Às vezes, ele acompanha tais espíritos em seus caminhos sombrios pelo mundo intermediário, aquela linha tênue que separa o mundo dos vivos do além-vida. Às vezes, embora raramente, ele desce ao mundo inferior, não para tentar rever sua mãe, pai ou algum amigo perdido, mas para tentar se acostumar com o tipo de local onde passará a eternidade.

Apesar de tudo, ele não é o tipo de pessoa mórbida que se poderia esperar. Na verdade, quando consegue uma folga de suas obrigações, sejam elas mundanas ou místicas, Daniel costuma evitar locais tristes como igrejas, cemitérios ou hospitais. Ele costuma ser visto sentado em um restaurante caro local, vestido casualmente, cadeira ao lado da mesa, sempre sozinho, bebericando um J. Walker Blue Label e escrevendo, pois tem como hobby, além da magia, o hábito de escrever anonimamente para um blog na internet.

Mas nesta noite tudo mudará. Há um ano, Daniel descobriu a existência de um pergaminho perdido, conhecido como a carta da letra negra, que descreve um ritual complicado, a ser realizado em uma noite tempestuosa, que colocaria quem o realizasse em contato com uma entidade antiga e pouco conhecida chamada de Guardião. Reza a lenda que aqueles que o derrotaram conquistaram poder suficiente para conseguir tudo o que desejam, em um único instante. Três meses atrás, após enfrentar seres infernais, ele conseguiu o pergaminho. E desde então se prepara para o confronto.

Hoje Daniel está pronto. Conseguiu todo o necessário para invocar o portal e realizar a travessia: uma encruzilhada com uma árvore no meio. Uma forca feita de intestinos de gatos negros para pôr em um galho da árvore. Uma noite tempestuosa, com o vento vindo do sul. A primeira menarca de uma virgem, para com ela desenhar runas em seu corpo. Uma faca feita de vidro negro. À meia-noite em ponto, ele começou o ritual: teceu a forca, pendurou no galho. Desenhou as runas no seu peito nu com o sangue. E, usando a faca de vidro negro, cortou o fino véu da realidade e adentrou o reino da criatura.

Daniel fora preparado para encontrar quase tudo: esperava encontrar demônios, em um ambiente completamente inóspito, que emanasse um calor insuportável para a vida, ou que contivesse um frio primevo, anterior ao surgimento do universo. Ele estava preparado para tudo isso e mais, sabia exatamente que tipo de feitiço usar para se defender/atacar nessas situações. Mas com certeza, ele jamais esperaria o que encontrou: uma criança de doze anos, gordinha, de óculos, na porta de um casarão amarelo com azul, a sorrir e lhe acenar.

Ao aproximar-se, a criança lhe disse: “Sou o guardião deste local. Seja bem-vindo. Se vieste aqui em busca do pulsar da vida, tudo o que precisa fazer é atravessar os cômodos desta casa comigo”. “Então, o que eu busco se chama pulsar da vida – pensou Daniel – um nome estranho, mas ao menos indica que deve ser algo físico, uma jóia, ou amuleto, talvez”. Então, segurando na mão da criança, ambos entraram na casa.

A sala de estar da casa era uma UTI. Nela jazia o pai de Daniel, com câncer, em seus momentos finais. Ele estava lá, com dez anos, ao lado de sua mãe, vendo seu pai morrer. Ao rever tal cena, ao escutar novamente o grito de sua mãe quando o monitor cardíaco do pai parou de dar sinal, quando as ondas se transformaram em uma única linha reta, ele não pôde evitar que uma lágrima lhe escorresse pelo rosto. “Por quê? Diga-me, Guardião, por que tenho que rever isto?” A única resposta do garoto foi apontar para a porta que o levaria para a próxima sala.

O cômodo seguinte era o antigo banheiro de sua casa. Ele se viu, agora com onze anos, ajoelhado, quase em choque, o olhar fixo no alto, no corpo da mãe morto. Ela, sem agüentar a falta do marido, enforcou-se no banheiro. O Daniel de onze anos ouviu o estralo do pescoço dela quando quebrou, mas não pôde fazer nada além de cair e chorar. O Daniel atual também caiu de joelhos, em silêncio.

– Vamos, meu jovem – disse o Guardião – não deixemos que pequenas tragédias familiares te façam desistir. Ainda temos alguns quartos e salas para visitar.

Levantando-se, enxugando as lágrimas no braço, tentado parecer forte, ele passou ao lado do seu “eu” menino, do corpo de sua mãe e entrou no cômodo seguinte.

– Agora, vamos reviver seu treinamento, e sua maior perda – falou o guardião, ao entrarem em um corredor descoberto, onde podiam ver as estrelas.

E de repente ele se viu na Bolívia, quatorze anos atrás, onde fez o curso de mestrado em direito de família e conheceu Pedro Lúcius Angelus, quarenta anos, também aluno do mesmo curso. Tornaram-se amigos e Lúcius, percebendo o potencial de Daniel, iniciou-o no Concílio dos Sete, seita mística a que pertencia. Devido a este fato, ele passou três anos em La Paz, aprendendo como o universo funciona e como fazê-lo funcionar de modo diverso. Ao término do primeiro ano, já era capaz de curar qualquer ferimento ou doença, não importa quão grave fosse, simplesmente tocando o enfermo, além de ver qualquer local que quisesse. Foi nessa época que conheceu Salma, filha de seu mentor e se apaixonou. Ao fim do segundo ano, já era capaz de transformar-se em qualquer animal que conhecesse. Podia ver o passado como se lá estivesse. Aprendeu como falar com os mortos. E, com a bênção de Lúcius, casou com Salma.

Em sua terra natal, na região do Cariri, ninguém jamais soube, ninguém sequer poderia imaginar que Daniel casara. Mas ele o fez. E foi extremamente feliz. Ambos se amavam e faziam planos de ter filhos. Cada vez mais ele desenvolvia suas habilidades místicas. Ao término do terceiro ano, ele assim planejava, iria retornar a Juazeiro com sua esposa e lá se estabelecer, com uma vida simples e pacata.

Mas nem tudo costuma sair como planejamos. Salma foi assassinada ao sair com uma amiga, Valéria, para a danceteria local. Um jovem, de aparentes vinte e cinco anos, branco, cabelos curtos, tatuagem no pescoço, bem vestido, não aceitando o fato de que podia ser rejeitado, quebrou uma garrafa de cerveja na parede e, utilizando-se de metade dela, matou-a. O golpe a atingiu no rim esquerdo. Na confusão, seu assassino conseguiu fugir, jamais sendo localizado pelas autoridades locais.

A isso tudo Daniel reviu, ao lado do Guardião, sempre implorando para que ele parasse. E o Guardião, com seu jeito de menino, nada fazia.

Salma morreu às 3:18 da manhã de 23 de março de 1997. Os médicos nada puderam fazer por ela, visto que perdera muito sangue no caminho. Daniel chegou ao hospital às 4:03 e, embora pudesse curar qualquer ferimento, não sabia como trazer os mortos à vida.

– Novamente, mago, você nada pôde fazer. Imagino como deve ser frustrante essa sua vidinha de merda. Teu pai morreu, e o que fizeste? E sua mãe? Ah, pelo menos você se vingou do assassino de sua mulher, não foi? Mas isso realmente valeu a pena? – Perguntava o Guardião, em tom irônico. Daniel parecia não ouvir, estava concentrado no quadro que se desenrolava a sua frente.

No passado, ele, na manhã seguinte ao assassinato, encontrou um Lúcius extremamente calmo, regando o jardim, como se nada tivesse acontecido. Indagado do porquê de seu comportamento, ele assim respondeu:

– Meu filho, eu já sabia que esse dia chegaria. Veja bem, eu te ensinei a ver o passado, mas também sei como espreitar o futuro. Antes que ela nascesse, eu já sabia como tudo terminaria, sabia que ela se casaria com você, que você seria um mago extremamente promissor, mas que não poderia salvá-la. Sei do mal que isto tudo vai causar a você, ao seu futuro. Sei que, em breve, irá me matar. Sei que destruirá o Concílio dos Sete e, então, tombará, sozinho. Sei que não haverá ninguém para chorar tua morte, assim como não haverá ninguém para chorar a minha. Pois pesada é a cabeça que carrega uma coroa e nós, magos, carregamos o fardo de sermos os reis, melhor, deuses, desta realidade. É nosso destino terminarmos sempre sós. Espero que entenda. E, sim, a resposta para a pergunta que você está pensando é sim, eu sei como ressuscitar, mas, apesar de te amar, meu futuro algoz, e amar ainda mais a minha filha, não ouso interferir com o destino que vi.

Nisso ele partiu. Nunca retornou à Bolívia. Dois meses após a morte de sua esposa, convenceu certos espectros a levarem, ainda vivo, o assassino ao inferno. Lá o mesmo vem sendo torturado até os dias de hoje. Um ano depois, mandou matar Lúcius de um modo bastante mundano, mas bem eficaz: pagou um pistoleiro para, num momento de distração, acertar-lhe a cabeça com um tiro de .45.

Nos anos que se seguiram, Daniel alcançou mais e mais poder. Tornou-se, sozinho, mais poderoso que o Concílio dos Sete, que contava com seis membros, e o destruiu. Isso, obviamente, lhe trouxe mais inimigos. O que o forçou a se tornar mais poderoso para se proteger. A cada inimigo destruído, outro tomava seu lugar. Só Deus pode saber como ele conseguia advogar, dar aula e ainda escrever besteiras pra um blog bebendo uísque quando tantas pessoas desejavam sua morte.

– Então, Daniel, é por isso que desejas tanto o poder que ofereço? Apenas para te proteger, para evitar que te matem pelos erros que cometeu? E para que desejas tanto viver? Apenas para um dia morrer, sozinho, em uma cama de hospital? Até teu pai teve destino melhor, até ele, que não era nada comparado a ti em poder e inteligência, teve uma esposa e filho, além de vários amigos, para chorarem sua morte. Tua morte será apenas motivo para que teus colegas tirem folga, pois acho, acho, que o reitor de tua faculdade iria decretar ponto facultativo. Mas não te enganes, mesmo com a folga, nenhum colega ou aluno iria ao teu funeral. Estarás sozinho ao morrer, como sempre esteve em vida.

Nisso ele caiu de joelhos, aos prantos. O cenário mudou. Voltaram para a mundo real. Lá estava o poderoso Daniel, caído na chuva, nu, chorando, totalmente desconsolado, e o Guardião ao seu lado. Rindo alto e alegremente, o Guardião fez Daniel se levantar, subir no balde onde trouxera o sangue menstrual da virgem e colocou a forca de intestinos de gatos em seu pescoço.

– Esse é o destino dos tolos, Daniel. A ti foste dado poder suficiente para moldar a realidade, mas o desperdiçaste. A ti foste dado o poder de ser o que bem quisesses. Mas, assim como todos os humanos, desperdiçaste teu potencial. Uma pena.

– Não, Guardião, não desperdicei – falou Daniel, numa súbita recuperação – Finalmente entendi de que se trata o pulsar da vida – disse, enquanto a forca brilhava e desaparecia – Finalmente compreendi que nunca, nunca, precisei desses poderes. Finalmente percebi que o futuro pode ser evitado, e, ao contrário de Lúcius, eu não tenho medo de tentar. Pois o medo de ser feliz, espectro, é o que nos mata, por mais que continuemos vivos.

Então Daniel desceu do balde, vestiu suas roupas encharcadas pela chuva, passou a mão pela cabeça do Guardião e simplesmente o deixou lá, sozinho sem nada entender. O Guardião voltou para seu reino e Daniel retornou à sua casa, não mais capaz de alterar a realidade ou de tocar, ou mesmo falar, com os mortos. Daniel conquistou o prêmio, o pulsar da vida e, com isso, tornou-se um reles humano. Livrou-se do peso da coroa de rei desta realidade e finalmente encontrou a paz e o sono tranqüilo que apenas aos mais simples plebeus é permitido ter.

— João Octávio Anderson Trindade Boaventura

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3 comentários em “O Mago

  1. Lilica disse:

    Texto longo, porém muito bom!
    Não sabia que entendia de magia. Sabe que entendo também?
    Bjs

  2. Lilica disse:

    Sim, minha história lá do blog é verídico!

  3. João Octávio A. Trindade Boaventura disse:

    E não entendo! tudo o que sei sobre magia aprendi jogando um rpg chamado “mago: a ascensão”.

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