Heart of a drifter

Finalmente, a campainha tocou. Um homem com roupa azul e amarela lhe estendeu um pacote e uma prancheta. Ele assinou o papel contido naquela prancheta, agradeceu e pegou o pacote, abarrotado. Por muito esperara este momento.

Calmamente, dirigiu-se para o balcão da cozinha. Com uma faca, cortou as fitas adesivas que lacravam o pacote. Abriu-o cuidadosamente, já prevendo o que seria. Em um saco plástico, estava um coração humano. O seu coração.

Olhou-o atentamente. Há tanto tempo o dera de presente. Entalhara ele mesmo uma caixa de madeira, adornara-a com brilhantes e fora seu fundo com o mais rubro cetim que encontrara. Na tampa, em uma folha feita da mais suave seda, copiara um poema de William B. Yeats, “Ele deseja os tecidos da noite”. Como fecho para tão esplendoroso estojo, forjara, em sua própria casa, um cravelho do mais puro ouro, com as iniciais dela em baixo-relevo.

Em uma noite apropriada, em que o luar resplandecia languidamente sobre as calçadas, em que saboreavam um doce Cabernet Sauvignon, ele confessara que a amava e entregou-lhe tão especial caixa. “Guardas com cuidado, pois deténs meu coração”, falou, parafraseando Yeats. Uma singela lágrima de felicidade escorria pelo rosto dela. Uma promessa de nunca se separarem foi feita.

O tempo passou, a promessa foi esquecida. Por algo que ele disse, ela replicou com um olhar fustigante, deu-lhe as costas e saiu, a passos fundos, sem nada dizer. Melhor teria sido se o tivesse esbofeteado, injuriado, do que isso.

Hoje, o coração há tanto tempo ofertado retornou. Não da forma como foi entregue. Hoje, o coração já quase não batia, possuía uma coloração escura demais e exalava um forte e repulsivo odor, como se já estivesse em decomposição. Olhando-o bem de perto, ele parecia, em alguns cantos, como se tivesse sido mordido e cuspido de volta. O coração estava em frangalhos.

Após todas essas constatações, essas reminiscências, ele dirigiu-se para a sala. Pegou um copo de vinho, ligou o som e colocou pra tocar soldier of fortune do Deep Purple. Não era a primeira vez que tinham maltratado seu coração. Certamente, não seria a última. Em alguns meses, ele estaria saudável novamente, pronto para ser entregue a outra dama, pronta para ser cuidado por outra pessoa e, então, desprezado e destruído novamente.

— João Octávio Anderson Trindade Boaventura
que já teve o coração destruído mais vezes do que pode contar,
mas que mesmo assim nunca desiste.

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2 comentários em “Heart of a drifter

  1. Allan disse:

    fastástico, meu amigo!

  2. Marcelo disse:

    De muito bom gosto. Parabéns!

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