A Melhor Vingança

Altair estava sentado no topo da colina já há algumas horas. Lembrou-se de sua infância, quando, em peregrinação, junto de muitos outros, tantas vezes lá subiram. Quando ainda tinha fé. Lembrou-se da adolescência, desperdiçada com bebidas e cigarros baratos, atrás de mulheres de valor semelhante. Lá, naquela época, também subia a colina, a pé, não movido pela fé, mas pela sensação de pertencimento. Pelo fato de tantos colegas subirem com o único objetivo de secar algumas garrafas de vinho longe da família.

Hoje foi diferente. Altair subiu a colina em sua velha pick-up, não para encher a cara, não por fé, mas apenas por precisar de um lugar tranquilo para pensar.

Seis meses atrás, sua vida começara a perder o prumo. Perdeu a mãe, seu irmão foi preso, seu cachorro pegou calazar. Por fim, há quatro meses, voltando mais cedo para casa, flagrou a esposa na cama com seu vizinho, Rogério. Ela partiu na semana seguinte, levando os dois filhos e dizendo que não precisava se preocupar com pensão, pois não eram dele.

Até então, Altair mal esboçara uma reação. Nunca se atrasou um dia sequer em seu emprego de atendente de telemarketing, jamais perdeu o futebol dos sábados com os amigos. Na verdade, até fez questão do Rogério continuar no seu time, já que era amigo de longa data e o melhor zagueiro que conhecia.

Não surpreendeu ninguém quando ontem, às 2 da tarde, três horas antes de fechar seu ponto, levantou de sua estação, colocou o fone na mesa e simplesmente saiu, sem falar nada. Tampouco houve qualquer tipo de comoção quando, meia-hora depois, chegou no bar de Seu Pedro e começou a beber, sozinho, até a hora de fechar. Muitos o viram lá, só, mas ninguém ousou se aproximar. Alguns homens, eles diriam, já estão quebrados há muito, apenas não caíram por não terem percebido. Foi exatamente assim com Altair.

Ali, no topo da colina, já curado de sua bebedeira, estava sentado, observando a cidade e esperando o sol nascer. Somente há pouco, quarenta minutos talvez, percebeu o que ocasionara essa dor, essa tristeza: a ausência da aliança em sua mão esquerda. Embora muitos já o tivessem visto roçar o anelar com o polegar, o mesmo ainda não tinha percebido o que essa ausência significava. Hoje, ele tinha sido inundado com essa percepção, com esse significado.

Altair subiu a colina pensando em morrer. Sentou-se, de madrugada, observando a estrela que inspirou seu nome, a 12ª mais brilhante no céu noturno. Altair, “aquele que voa”. Para alguém com um nome de tanto significado, ele passou muito tempo preso ao chão, agrilhoado por coisas mesquinhas, por vontades alheias às suas. Hoje ele percebeu que finalmente estava livre, que a aliança e toda sua vida pregressa nada mais eram que as grades e correntes que o prendiam. E, assim como os personagens do conto Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank ele fora “institucionalizado”: não iria jamais conseguir levar uma vida normal, livre, naquele lugar, fora de sua prisão. Por isso decidira morrer.

Quando os primeiros raios de sol banharam a cidade que fora seu lar por toda sua vida, Altair levantou-se devagar e deu as costas a tudo. Entrou em sua pick up, conferiu que seus principais pertences lá estavam (um violão, a foto dos pais, uma mochila com quatro peças de roupa e um livro de Gabriel Garcia Marques), deu partida e nunca mais voltou. Alguns diriam que morreu. Mas a verdade é que resolvera se vingar de todos: do chefe abusivo, do falso amigo, da esposa infiel. E nunca nenhuma vingança poderia ter sido melhor que a planejada.

Altair faria exatamente aquilo que menos se esperaria dele: iria ser feliz. E que todo o resto se lascasse.

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