End of time

E é chegado o fim de uma era. Todo esse blog foi escrito durante um período de 4 anos: 1 apaixonado e três namorando com Eugênia Feitosa (que não é mais tão maravilhosa).

Embora existam sim textos feitos para outras pessoas e alguns totalmente ficcionais, seria mentira dizer que os melhores não foram inspirados nela. Assim o foi com o poema que leva seu nome, com os dois textos sobre Jake, boa parte dos demais poemas e quase todas as prosas.

Já faz tempo que não escrevo nada. A baixa produtividade refletia o estado do relacionamento. Já faz um tempo que ele acabou, mas só agora resolvi registrar isso aqui, publicamente. Uma era acaba.

Não vou apagar o blog, nem deletar ou editar textos, eles continuarão aí enquanto o wordpress (site que o hospeda) assim permitir. Uma era acabou. Mas sabe Deus quantas mais ainda se tem pela frente? E disposição para vivenciá-las, enfretá-las, curtí-las, eu sempre terei.

“So, this is the end of a time. Let the next start”

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Heart of a drifter

Finalmente, a campainha tocou. Um homem com roupa azul e amarela lhe estendeu um pacote e uma prancheta. Ele assinou o papel contido naquela prancheta, agradeceu e pegou o pacote, abarrotado. Por muito esperara este momento.

Calmamente, dirigiu-se para o balcão da cozinha. Com uma faca, cortou as fitas adesivas que lacravam o pacote. Abriu-o cuidadosamente, já prevendo o que seria. Em um saco plástico, estava um coração humano. O seu coração.

Olhou-o atentamente. Há tanto tempo o dera de presente. Entalhara ele mesmo uma caixa de madeira, adornara-a com brilhantes e fora seu fundo com o mais rubro cetim que encontrara. Na tampa, em uma folha feita da mais suave seda, copiara um poema de William B. Yeats, “Ele deseja os tecidos da noite”. Como fecho para tão esplendoroso estojo, forjara, em sua própria casa, um cravelho do mais puro ouro, com as iniciais dela em baixo-relevo.

Em uma noite apropriada, em que o luar resplandecia languidamente sobre as calçadas, em que saboreavam um doce Cabernet Sauvignon, ele confessara que a amava e entregou-lhe tão especial caixa. “Guardas com cuidado, pois deténs meu coração”, falou, parafraseando Yeats. Uma singela lágrima de felicidade escorria pelo rosto dela. Uma promessa de nunca se separarem foi feita.

O tempo passou, a promessa foi esquecida. Por algo que ele disse, ela replicou com um olhar fustigante, deu-lhe as costas e saiu, a passos fundos, sem nada dizer. Melhor teria sido se o tivesse esbofeteado, injuriado, do que isso.

Hoje, o coração há tanto tempo ofertado retornou. Não da forma como foi entregue. Hoje, o coração já quase não batia, possuía uma coloração escura demais e exalava um forte e repulsivo odor, como se já estivesse em decomposição. Olhando-o bem de perto, ele parecia, em alguns cantos, como se tivesse sido mordido e cuspido de volta. O coração estava em frangalhos.

Após todas essas constatações, essas reminiscências, ele dirigiu-se para a sala. Pegou um copo de vinho, ligou o som e colocou pra tocar soldier of fortune do Deep Purple. Não era a primeira vez que tinham maltratado seu coração. Certamente, não seria a última. Em alguns meses, ele estaria saudável novamente, pronto para ser entregue a outra dama, pronta para ser cuidado por outra pessoa e, então, desprezado e destruído novamente.

— João Octávio Anderson Trindade Boaventura
que já teve o coração destruído mais vezes do que pode contar,
mas que mesmo assim nunca desiste.

Agradecimentos

Pessoal, esse post é apenas pra agradecer os comentários recentes (obrigado Marcel, Julia, Daiane, Acelino, Gisely e todos os outros). Faz cerca de dois meses desde meu último post, quase seis meses desde o último poema (feita para minha namorada) e um ano e sete meses desde que realmente escrevi algo que julguei interessante (Rima Infernal). Mesmo assim, esse blog conta com, neste momento, 19.166 visitas, cerca de 30 por dia na última semana. Obrigado a todos por ainda lerem, comentarem e visitarem em busca de algo novo. Prometo que assim que conseguir organizar melhor meu tempo, escreverei alguma coisa. Na verdade, tenho algo em mente, não é bem um conto, mas um cenário para uma história, com direito inclusive a um mito da criação próprio. Bem, a Julia se despediu dizendo “até o dia 16”. Então, até lá (faltam só 3 dias!!) vou tentar escrever algo, ok?

Abraços a todos e obrigado novamente.

Estou vivo – Vídeos

Pessoal, sei que passei bastante tempo sem atualizar e, mesmo após todo esse tempo, não tenho texto nenhum novo, mas assim que tiver alguma idéia boa escrevo.

E quanto isso, andei lendo o papodehomem e após ler este texto do Jáder Pires, resolvi postar dois vídeos. Um é o curta-metragem “momentos”, que encontrei graças ao naodiganada.blogspot.com, o outro é a música A lista, de Oswaldo Montenegro, que conheci numa bebedeira às três da manhã. Curtam e se emocionem.

Eugênia Feitosa

Isso é sobre uma garota chamada Eugênia Feitosa
(meu Deus, como ela é gostosa!)
Garota simples, sempre uma boa filha,
embora na vida social fosse como uma ilha.
Amigos ela quase não tinha,
pois sempre foi muito certinha.

Um dia, ela foi trabalhar num banco.
Tímida, não queria, teve que ir no tranco.
Lá quase a mataram de vergonha,
piadas eram tantas que vivia tristonha.

Acho que direito não a descrevi,
embora jamais esqueça o dia em que a vi:
Tímida, recatada, sem graça, sem jeito,
mas com um sorriso que era mais que perfeito.
Dona de uma beleza sem igual,
nada tinha de artificial.
Sua pele era de uma brancura
capaz de me levar à loucura.
Seus olhos, cor de mel,
pareciam ter sido feitos no Céu.
Seu cabelo, de cor indecisa
a todos paralisa.

Um dia ela se apaixonou.
Coitada, nunca antes amou!
Apaixonou-se por um cara que não presta,
logo ela, uma mulher tão honesta.
Apaixonou-se por um tal João Octávio,
cara, ruim, parecia um corsário.
A todas ele iludia,
sem se importar com o mal que isso trazia.

Ah, mas o amor é mágico:
de algo que poderia ser trágico,
veio uma união quase perfeita,
pois por seu coração ela foi eleita.
Ele, que antes era um canalha,
pra fazê-la feliz agora trabalha.
Ele, que rimas não conhecia
se viu fazendo elegias.
Ele, que nunca recusou companhia noturna
parecia agora dormir numa urna.

E quanto a nossa Eugênia Feitosa?
(meu Deus, ela é maravilhosa!)
Dona de uma beleza infinita,
não era mais como uma eremita.
Começou a sair pra festas,
embora antes, achasse isso as trevas.
Passou a arrumar o cabelo,
com a beleza teve mais zelo.
Às cantadas de João ouvia com um sorriso,
pois, pra ela, ficar com ele era preciso.

Se esse romance vai dar certo?
Ah, deixa quieto!
Isso só o tempo poderá dizer,
nada há que possamos fazer.

Obituário II

Faleceu na manhã de sexta, 05/03/2009, Frajuto, 18 anos, gato de estimação desta casa. Mais que um isso, verdadeiro amigo meu. Faleceu já em idade avançada para os de sua espécie, admito, mas mesmo assim sua partida parece inaceitável.

Deixará saudades, Frajuto.

Requiém para um amigo

Quando ele chegou à minha casa, eu pouco mais era que uma criança: inocente, não percebi que aquele recém-nascido não seria criado como um amigo ou irmão, mas, no máximo, como um escravo.

Os anos foram passando e, embora eu fizesse todo o possível para aliviar seu tormento (quão tormentosa é a ausência da liberdade!), para diminuir seu sofrimento (fazia tarefas que seriam tipicamente suas, alimentava-o com minha comida, etc), ele parecia envelhecer bem mais rápido que eu.

Vale salientar que, quando jovem, ele não parecia se importar muito com sua condição de escravo: minha amizade era suficiente para faze-lo feliz e livre por alguns minutos. Sim, éramos amigos inseparáveis quando crianças: nas noites de chuva, eu abria minha janela e o deixava dormir na minha cama, tal qual fosse um irmão, um filho, ou um amante.

Infelizmente, os anos foram passando e eu fui crescendo. Não mais o procurava para brincar, não pedia sua opinião sobre mulheres – meu pobre amigo fora castrado ainda jovem – e não discutia os mais sérios assuntos com ele – como um ser sem instrução nenhuma poderia me ajudar a achar solução para os problemas que percorriam meus pensamentos?

Enquanto eu crescia e dele me distanciava, sua condição de serviçal foi se tornando mais clara: nossa propriedade foi invadida diversas vezes e ele, sozinho, teve de expulsar os invasores. Isso, mais o fato de que sua alimentação se tornara precária com minha ausência – muitas vezes ele tinha que caçar para sobreviver – foram debilitando sua saúde, catalisando o seu processo de envelhecimento. Hoje, boa parte de seus dentes já caiu, sua audição não é mais mesma e ele está quase cego de um olho.

Poucos dias atrás, enquanto eu estava fora, ouviu-se um barulho estranho no terreno que cerceava a casa. Quando criaram coragem para ir ver o que estava acontecendo, viram que meu velho amigo travava novamente uma batalha, cumprindo seu dever de servo leal e protegendo seus mestres a qualquer custo. Tal batalha ele venceu sozinho, mas o preço cobrado fora alto: seu coração não aguentou e, doente, ele tombou.

Quando cheguei em casa, encontrei todos em luto: ele, que se tornara mais que um servo, mais que um bom amigo, estava morrendo, e nada podia ser feito. Nada, a não ser orar pela sua alma.

Espero, grande amigo, que Odin reconheça que morreste em decorrência de uma batalha e que te reserve um lugar de honra no Valhala. Espero que quando minha hora chegar, eu possa te reencontrar lá.

(eu sei que o conto está bem aquém dos anteriores, mas foram uns 3 meses ou mais sem escrever nada e a versão original dele foi roubada junto do meu notebook anterior. Prometo tentar melhorar os próximos textos)