Sobre Envelhecer II

Chega um dia em que simplesmente devemos parar e crescer. Abandonar todos os velhos hábitos e nos tornarmos “adultos”.

Chega o dia em que simplesmente devemos esquecer as coisas simples capazes de nos ocasionar felicidade, prazer.

O dia em que trocamos nosso crédito no fliperama da esquina por um cartão de crédito internacional.

O dia em que esquecemos os amores da infância e nos contentamos com relacionamentos esporádicos, de pouca duração, de mínima emoção.

O dia em que deixamos de ter amigos – eles são substituídos por “colegas” de trabalho, de faculdade, de barzinhos.

Enfim, chega o dia em que paramos de VIVER e simplesmente continuamos por aí, andando e respirando, sem estarmos vivos de verdade.

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Pesadelo

Não são os sonhos ruins que me deixam
triste, e sim os felizes. É horrível acordar
e perceber que eram apenas sonhos”

Faz tantos anos que trabalho nesta mansão que não consigo sequer lembrar quando comecei. Fui acolhido pelo senho Thomas quando ainda era jovem e o servi – e à sua esposa – enquanto viveram. Hoje tenho o prazer de servir ao patrão Bruce, que vi crescer e se transformar no homem mais digno que se possa imaginar.

A história que hoje conto é sobre a única vez em que vi meu patrão chorar após a morte dos pais. Ele estava exausto, bastante cansado e levemente adoentado fazia semanas. Mas como todo jovem, ele sempre achava que isso não era nada, que sempre podia passar mais uma noite por aí, fazendo o que ele faz. Pelo visto, os – como é que os jovens chamam mesmo? – “pegas” de ontem com a senhorita Kyle o exauriram. Essa noite ele dormiu até mais tarde. E acordou gritando pela mãe, pela patroa Martha – que Deus a tenha! – pela primeira vez, após mais de vinte anos.

Ao entrar no quarto, o que vi não era o homem que pagava meu salário e que criei como se filho meu fosse. O que vi foi uma criança de trinta e dois anos, sentado no chão, enrolado com o lençol e chorando e soluçando. Isso foi o que ele me disse quando conseguiu se recuperar:

– Alfred, velho amigo, eu tive um pesadelo. Sonhei que meus pais morriam, mas que era tudo diferente. Que ficamos pobres – nesse ponto fui obrigado a intervir, pois nem se quiséssemos poderíamos dilacerar a fortuna angariada pelo patrão Thomas – Sabe, pobres, mas felizes. Você, mesmo com recursos bem mais parcos, cuidava de mim como nenhum pai conseguiria – exatamente como fez. Eu comecei a trabalhar cedo, como um reles operário de uma fábrica qualquer. E achei o Amor de Minha Vida.

“Ela era perfeita, Alfred. Linda, maravilhosa. E me amava. Ela. Me. Amava. E eu sabia que me amava pelo que eu era e não pelo que eu tinha, pois eu não tinha nada. Ela. Me. Amava. Deus, Alfred, como isso dói. Fomos felizes, eu, ela e você. Tivemos filhos, dois, e você me ajudou a criá-los tão bem como me criou.”

Dizendo isso, ele se levantou, enxugou as lágrimas e parecia que não tinha chorado. Desceu, pegou sua roupa no armário e saiu no seu carro preferido. Hoje, eu tenho pena daqueles que cruzarem seu caminho.

— Alfred Pennyworth

(personagens são copyright e trademark da DC Comics,
uma divisão da Time-Warner. E o sonho aconteceu comigo,
embora eu estivesse acordado quando o tive)

Para Padmé, um rondel: Tempo

Esta noite foi esquisita. Tomei meus dois comprimidos (dois antidepressivos) e fui dormir. Sonhos estranhos surgiram. Em um deles, eu estava com uma rede de caçar borboletas, catando versos de um poema que era levado pelo vento. De tal poema, ao acordar, só lembrei do título (o que está acima), dos dois versos iniciais que se repetem ciclicamente e de todas as rimas do final de cada verso. Acordei, anotei. Agora, tive que reinventar o corpo do poema, mas ainda assim deu um rondel quase perfeito (tive apenas que alterar a terminação da para das e acrescentar um texto extra na última estrofe). Mas, uma vez, ao sair com meu amigo Allan Xenofonte, acabei, bêbado cego e após provocação por parte dele para que fizesse uma poesia ao texto meloso para Padmé, proferindo o seguinte, do qual um trecho foi anotado por nosso amigo Frank: “E que fodam-se a rima e a métrica, nada melhor que Padmé” (mais sobre isso aqui). Por isso, acho que estou perdoado por não seguir fielmente o esquema do rondel. Bem, deixando de enrolada, aqui vai, para Padmé, um rondel: Tempo.

Tenho em alta conta o tempo que passei contigo
talvez tenham sido os melhores dias de minha vida
pois, para meus problemas, tu eras abrigo
mesmo quando ainda eras comprometida.

Ao teu lado, força achava para enfrentar qualquer inimigo.
Pena que acabei por te deixar desiludida.
Tenho em alta conta o tempo que passei contigo
talvez tenham sido os melhores dias de minha vida

Não te tenho mais, mas por teu amor não mendigo.
Deliciosas foram as noites contigo divididas,
mas o passado não serve para guiar o futuro de nossas vidas.
Hoje sei que não passo de um amigo,
(mesmo assim) tenho em alta conta o tempo que passei contigo

João Octávio
surpreso por se lembrar tão bem
de um sonho sobre sua ex-namorada