Jake & June (ou outra história de dias chuvosos)

Antes de iniciarmos, devo deixar claro que se trata de um conto de ficção.

Esta é a história de Jake e June. Não a história completa, claro. Afinal, não vou contar como eles se conheceram, tornaram-se bons amigos e eventualmente se apaixonaram. Não, de jeito nenhum. Vou apenas descrever superficialmente os personagens e relatar o fim de sua história (pelo menos, até onde eu saiba, é o fim).

Jake sempre foi um homem de poucos amigos e menos amores ainda. Totalmente averso à sociedade, até mesmo estranho a ela. Sabe-se que entre os poucos que ele possa chamar de amigos estão aquelas pessoas que você se queixa a Deus por não ter conhecido. Seus amores nunca foram simples “amores”; eram, em verdade, Amores, assim, com “A” maiúsculo mesmo. Talvez até mesmo AMORES, usando todas as letras capitulares. Poucas mulheres ele amou e com menos ainda chegou a se envolver. Dizem que Jake não tinha dores-de-cotovelo e sim dor-de-corno, pois seu sofrimento toda vez que lhe era negado o que queria parecia mais como alguém que descobre que está sendo traído pela mulher que, duas horas antes, lhe fez juras de eterno amor pelo telefone. Talvez Jake simplesmente gostasse de sofrer, achasse isso estiloso, sei lá. A conquista e perda de June na mesma noite causou-lhe tamanha dor, tão profunda depressão que ouso dizer que ele sofreu tanto quanto João 8 ao perder Arwen. E olha que sou amigo de João 8, sei que esse fato já data mais de dez anos e ainda hoje, quando chove, uma lágrima sutil escorre solitário de seu olho esquerdo em memória a ela. Escorre, solitária, sem deixar sinal de que por lá passou, exceto pelo ar de melancolia que domina todos os que já presenciaram tal cena. Jake perdeu June semana passada. E parece carregar toda a dor do mundo em suas vísceras.

June, muito mais jovem que Jake, exala aquele ar de boa moça difícil de se sentir hoje em dia em alguém, seja esse alguém velho ou uma menina de cinco anos de idade. Criada sob preceitos que já eram arcaicos e já beiravam o desuso quando Jake era jovem, ela cresceu temente a Deus e aos pais. Mais aos pais do que a Deus, ouso dizer. Zelosa, estudiosa, trabalhadora. Típica menina que você iria querer ter como filha, embora eu ache que não fosse ser uma boa namorada, se é que me entendem. Ah, vá lá! Você que está lendo isso pensa mais ou menos como eu e Jake, que mulheres devem ser MULHERES, independentes, decididas e corajosas. Que devem ter iniciativa. Que devem demonstrar sua feminilidade na maneira como nos amam e não na maneira como nos são submissa. June, até onde posso inferir, era submissa. Sempre à espera do comando paterno. Sempre com homens mais velhos (embora sempre arrependida, pois isso desagradaria ao pai), sempre com amigas mais velhas. Sempre numa posição de relativa inferioridade para que sempre houvesse quem pudesse lhe dizer o que fazer e como fazer.

Acho que não descrevi Jake suficientemente. Para completar o quadro basta dizer que ele sempre foi boêmio. Talvez até viciado em cerveja e barzinho, como diriam alguns. Na verdade, Jake só fez amigos ao começar a beber e só conheceu mulheres após beber com elas. Ah, como ele as conheceu! Não apenas de corpo, ele diria até que chegava a compreender o que elas pensavam (ledo engado! Compreender uma mulher é o mesmo que tentar represar o mar). Assim sendo, é difícil acreditar que ele possa ter se apaixonado por June. Mas isso aconteceu. E June, aquela “santinha”, se apaixonar por Jake, “aquele cafajeste”, como diria seu pai, é bem mais improvável. Mas mesmo assim aconteceu.

Aconteceu também de esse ser um amor impossível. Jake sempre assumira o que sentia por ela, mas June jamais dava uma resposta direta. Um dia marcaram para se encontrar e discutir isso a sério.

Nesse dia, Jake calçou seu chinelo de dedo mais bonito (embora menos confortável) um short mais-ou-menos (único que tinha limpo no dia), uma camisa de linha que todos julgam bonita, exceto ele. Pra completar, usou o perfume importado do tio e pegou emprestado, sem pedir, o anel mais caro de seu pai (um homem pobre, mas apreciador de jóias). June, por sua vez, aguardava em casa, aparentemente tranqüila. Tinha acabado de tomar banho e se vestir quando ele chegou: usava um vestido nem longo, nem curto, desses que não revelam nada sobre as reais intenções da mulher. Sorria um sorriso sem graça, tímido. Daquele tipo de sorriso que as mulheres costumam dar quando um homem fala sobre algo que não entendem ou quando estão desconfortáveis na situação atual e não querem demonstrar.

Enfim, saíram juntos, para conversar. Jake, embora embasbacado com a beleza de June (que nem era tão bela assim, mas vocês sabem como é ridículo um homem apaixonado…), o coração levemente fora de ritmo, foi direto: perguntou, ao término do segundo copo de soda limonada o que June sentia.

Aqui cabe uma pausa para explicitar o ambiente. Saíram da casa de June por uma ruazinha de pedra, dessas que hoje em dia são difíceis de se encontrar e foram sentar num banco de praça. Cena ridícula, eu sei, mas ela era extremamente jovem e infantilizada e ele apaixonado, fazer o quê? Claro que começou a chover. Alguém aqui já viu uma história de amor ou uma cena triste que não tivesse aquela chuvinha fina e constante ao fundo? Pois é, bastante clichê, mas chovia no início. Assim, foram pra um restaurante, onde poderiam se abrigar da chuva e conversar sem serem ouvidos, embora estivesse cheio e sentassem na entrada. A velha e boa técnica de “esconder-se no meio da multidão”. Lá, tocava Zeca Baleiro no início. Depois Toni Braxton e Joan Osborne. Deve ter tocado outras coisas, mas Jake não lembrou/não quis relatar. Sim, lá ventava muito, estava razoavelmente frio, mas Jake ainda achava que poderia tomar algumas cervejas se a conversa não necessitasse dele sóbrio.

June tremia. Dizia ser de frio, embora eu afirme que fosse de nervosismo. Durante hora e meia (tempo para secar 600ml de refrigerante), enrolou. Ao saírem, disse que Jake já sabia a resposta, embora a mesma não tenha sido dita. Não verbalmente, pelo menos. Ela veio na forma de um beijo que parecia não querer sair. Um beijo com emoção, desses que quem dá enche os olhos de lágrimas. Um beijo pouco experiente, desses que estralam baixinho quando os lábios se separam e que as línguas mal se unem. Mas ainda assim um beijo. E que beijo! Jake ficou tão emocionado que não conseguiu manter mais a voz monocórdica que usava quando queria falar sério, aquele tipo de voz que inspirava confiança absoluta no que se fala. Na verdade, após esse beijo, houve um tempo sem que nenhuma palavra fosse dita.

Finalmente, com uma voz rouca, trêmula, daquelas que parecem se arrastar pela garganta pesadamente antes de sair, Jake expressou o que todos sabiam, mas não admitiam: que eram e continuariam sendo impossíveis.

“June, eu te amo. Mas te amo tanto que dói até falar disso. Ao te abraçar e sentir teu cheiro, percebo que não quero sentir jamais nenhum odor artificial de perfume algum. Teus lábios para mim são como a entrada para o paraíso. E teu corpo, colado no meu, acende um fogo diferente. Não, amor, não me olhe assim. Não é o fogo do desejo sexual que se apodera de mim… É algo sublime, perfeito, quase divino. É o fogo da vida, aquela sensação de finalmente ter descoberto que minha função neste mundo nada mais é que te amar e tentar te fazer feliz… Porra, te amo tanto que chego até a ficar meloso como menino de quinze anos! Mas June, querida, uma coisa que percebi é que você tem razão: somos impossíveis. Completamente. Teve coragem de me beijar, de chorar no meu ombro e me fazer chorar, mas não ousou dizer que gosta de mim, embora eu tenha passado horas perguntando isso. Se não teve coragem de me dizer que gosta de mim, como contará para sua família que está com o perdido? Vê como seria difícil? Incrível, June (voz bem mais rouca, engasgada. Sinal de que está chorando ao falar), mas hoje, após tanto tempo, percebi o quanto nos amamos e o quanto poderíamos ser felizes. (longa pausa. Recomeça com a voz bem mais baixa, já sem engasgos). Percebi também que fomos fadados a falhar, a sofrer e o quanto somos diferentes. Como você diria, Impossíveis.”

Sei lá se essas foram suas palavras exatas. Só sei que depois disso ambos choraram mais um bocado, se abraçaram e novamente trocaram beijos. Jake foi deixar June em casa e, pela primeira vez na noite, sentiu frio. Não o frio do tempo, do clima. Mas um frio muito pior: o frio de sua alma. A dor que dele emanava era quase palpável.

Sentaram ambos na calçada, June, com a cabeça entre os joelhos, nada falava. Jake, prendendo a respiração (pois era mais fácil prendê-la do que arriscar respirar como alguém que acabou de chorar e queria voltar a fazê-lo), alisava levemente, com dois dedos apenas, o médio e o indicador, seus cabelos. Sentia algo meio impossível de se descrever, que só aumentou quando segurou na mão dela e começou a acariciar o braço. Sei lá, imaginem um choque leve, desses que apenas eriçam os pêlos, mas que podem ser captados pelo sistema nervoso. Um choque fraco, incapaz de causar mal ao organismo, mas ainda assim capaz de gerar uma reação parecida com o consumo de algumas espécies de psicotrópicos.

Novo abraço, poucos beijos, várias lágrimas suspensas e Jake se despede de June, prometendo sempre ser amigo dela e jamais repetir tal cena. Jake sabia que mentira. Ele não iria ser amigo dela. Iria sumir, ir pra longe, alistar-se na legião estrangeira, ou em qualquer milícia, apenas para não precisar pensar sobre como seria a vida se a tivesse sempre em seus braços.

E quanto a June, vocês me perguntam? Não sei e nem quero saber. Uma mulher que faz um amigo meu sofrer em uma semana o mesmo que João 8 passou em dez anos não me interessa. Espero que sofra bastante e perceba o quanto perdeu.

-- Paracelso de Antígona,
cronista, amigo de Jake e
organizador das inúmeras
notas que um dia comporão
o "Livro Sagrada do Cara"

P.s.: talvez esse conto não seja totalmente ficcional. Poderia ter acontecido comigo, contigo ou algum amigo teu. Afinal, que não conhece história similar, passada numa ruazinha de pedra, entre dois amigos que descobriram ser mais que amigos e regados pela chuva? Talvez seja ficcional, mas eu a tenha copiado de algum canto. Ou talvez seja real a história, os fatos em si, mas o narrador que a conta não passe dum devaneio de uma mente superior, sendo ele o único elemento não-real daqui…

-- Paracelso de Antígona,
após sua dose diária de
ópio, duvidando de sua
própria existência.
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