Vida e Amores de João 8

Essa é a história de João 8
(escrito assim, sem traço, aspas ou qualquer outro sinal gráfico)
Uma história boa, divertida e com um toque trágico
Embora tudo não possamos te contar pra não te deixar tresnoito.

João 8 nasceu numa quinta,
uma quinta qualquer, indistinta.
Veio sem ter sido chamado,
pelo pais, não fora desejado.
Mesmo assim, deixou seu legado.

João 8 foi crescendo, sempre franzino.
Muita falta de exercício, imagino.
O que importa é que nunca foi bom dançarino.
Na formatura do ABC pisava no pé de sua dama.
Por não saber dançar, tanto demorou a levar mulher pra cama,
o que lhe rendeu um vício incurável por cerveja da brahma.

Dizem que ele se apaixonou cedo demais.
Um linda menina, que lhe tirou o sono e a paz.
Por ela, ele nutriu sentimentos ideais,
e por causa disso quase não foi feliz nunca mais.

Mais de dez anos ele levou pra esquecer
(o sentimento não queria arrefecer!)
Mesmo assim ele se forçou a viver
embora sem ela, nada quisesse ter.

Enfim, ele a esqueceu
(e que trabalho isso deu!),
mas só pra se apaixonar novamente.
Morena linda, muito decente,
roubou o coração de nosso amigo num repente.

Juras de eterno amor ele fez.
Poemas construiu com inigualável brilhantez,
doido pra de sua morena ver a nudez,
ela, porém, nesse ponto logo não o satisfez.
Queria provas de que ele não a abandonaria
Tão logo seu corpo deixasse de ter serventia.

Felizes eles eram.
Até um filho tiveram!
Mas o mundo se pôs no caminho,
o tempo que passavam juntos passou a ser daninho.
Então eles se separaram,
mas com a amizade não acabaram.

Outra noite, outra brahma.
E, olha só, eis que novamente ele ama!
Outra morena lhe chamou a atenção
e de novo ele entregou seu coração.

Com ela, pouco ele viveu,
porém muito se deu.
Feliz ele foi como nunca antes,
pois ambos se divertiam como bacantes.

Porém, o amor chegou ao fim.
Embora ela lhe fosse uma alma afim.

Com o coração partido,
ele se sentia perdido.
Jamais iria ter outro amor tão desmedido.

De dor ele gemia,
de frio tremia.
Queria voltar pra boemia,
mas seus pecados ele remia.

Outra noite, outra menina ele encontrou.
E, adivinhem só, a ela ele amou.
Alta, branca, bonita,
logo se tornou sua favorita.

Agora eu me calo.
Sei que a um verdadeiro poeta não me igualo.
Paro por não ter mais o que contar.
Pois sei que já estás cheio de histórias sobre sofrer e amar.

— João Octávio
adorando brincar com as rimas

Ressureição e Morte de João 8

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DOS ARQUIVOS DE BIGODE:

“Aquele que está quase morto ainda vive, mas quem está quase vivo já morreu”. Não sei de quem é a autoria desta frase, mas ela com certeza serve para descrever o estado em que se encontrava aquele que um dia se tornaria um dos meus melhores amigos quando o conheci. Quase vivo. Morto. Sem norte. Assim se encontrava João 8 (grafado assim mesmo, sem aspas, hífen ou qualquer outro sinal gráfico).

Conforme o que o próprio me contara, além de relatos de amigos e parentes próximos (Nial, Martelo – também conhecido como Canela – entre outros), João 8 morreu – fracionou-se, como ele prefere referir-se a esse fase – cerca de quatorze anos atrás. No dia em que descobriu que Arwen partira, provavelmente para sempre, de sua vida.

Aqui cabe uma pequena observação pessoal minha: João 8 começou seu processo de fragmentação meses antes do fato em si. Tanto que poucos dias antes da referida partida, a pessoa citada disse com todas as letras amá-lo (“levei uma surra de meu pai uma vez porque disse que queria namorar contigo”) e nosso colega, ao contrário do que faria hoje, permaneceu mudo, calado, sem palavras, sem nenhum chiste jocoso. Apenas soltou a mecha de cabelo que segurava e a olhou, em silêncio. Ela, claro, o olhou e achou-se não correspondida. Foi embora sem nada falar. Quando João 4 (sim, ela já se começara a se fracionar nessa época) percebeu que deveria falar algo, três dias depois, soube que já era tarde: Arwen, assim como seu irmão Niel, já tinha ido embora, em direção ao Oeste, algo que o mesmo convencionou chamar de Portos Cinzentos em alusão ao Senhor dos Anéis.

Quando o conheci, pode-se dizer que ele já era João 2. Quase morto. Um homem agarrado a uma paixão impossível há mais de sete anos. Nessa época, ele se tornara quase uma máquina, um ser totalmente racional. Alguém que quando perguntado o porquê de nunca ser visto sorrindo respondia que assim não fazia porque não havia motivos. Alguém que se questionava coisas como “Por que a soma dos quadrados do cateto é igual ao quadrado da hipotenusa, mas essa não é igual à soma dos catetos? Por que dois quadrados, ao se somarem, formam um ‘retângulo’, um número que não é necessariamente quadrado?, entre outras asnices. Alguém, cujo único sinal que dava de um dia ter sentido algo era a predileção pelo poema Anabel Lee, de Edgar Alan Poe. Enfim, alguém chato pra cacete.

O que importa é que acabamos nos afeiçoado a esse ser de estranha figura. Assim, Nial, Martelo, Galeto e eu resolvemos fazer o impossível: elevá-lo novamente à quarta potência. Ressuscita-lo. Transforma-lo novamente em João 8.

Claro que não sabíamos que o motivo era falta de mulher. Até suspeitávamos, mas não sabíamos. Para ter essa certeza, tivemos que investigar pesadamente durante quase um ano. Martelo o levava pra beber, pra ver se o homem falava. Não adiantou. Ele sorvia o líquido em completo silêncio. Nial leu toda a vasta coleção de quadrinhos que o mesmo possuía. Percebeu apenas que as revistas mais cuidadas eram as mais tristes, mais melosas. Galeto o provocava com piadas infames até o que achávamos ser o limite de sua paciência, mas o mesmo jamais reagia. Eu fiz um estudo de lingüística, aprendi a decifrar hieróglifos e ideogramas. Só assim pra entender a garrancheira que o rapaz escrevia. Reunimos tudo que sabíamos (o que era bem pouco) e levamos pra Mosha analisar.

Mosha era um ser estranho ao nosso círculo. Surgiu do nada, acompanhado do Demo, mas provou ser de valor e o deixamos ficar. Mosha era especialista em desperdiçar tempo na internet com coisas inúteis: invadir computadores alheios só pra frescar, criar scripts para Mirc (dizem que ele contribuiu, em um de seus dias gays, para a criação do scoop script), jogar RPG de uma maneira que fazia ninguém querer mais jogar com ele, entre outras coisas. Fora que era expert em contar vantagem. Por isso recorremos a ele.

Mosha pegou todos os dados esparsos que tínhamos e os compilou. Além disso, fez uma vasta pesquisa (google?) sobre nosso amigo. Enfim, Mosha se pronunciou de uma forma que tive que anotar:

– Amigos, após uma longa e exaustiva pesquisa, análise de fatores e tudo o mais, eu descobri a equação fundamental de João 8. Mas ela não fazia sentido. Era uma aberração, matematicamente falando. Era como se A+B fosse diferente de B+A, entendem? Não fazia sentido. O que quase me deixou louco. A equação tinha como resultado uma certa Undomiel, mas isso ia de encontro a todo o resto da pesquisa que desenvolvi. Como eu disse, estava ficando quase louco. Aí resolvi realmente ficar louco. Fumei meu cachimbo de ópio. Cheirei pó. Misturei fanta com coca e bebi. Só então, completamente chapado, percebi a solução e quase morri de rir: “Undomiel”, é, na verdade,  o sobrenome de “Arwen”, o nome de uma ex-vizinha dele.

Isso, claro, nos deixou aliviados. Sabíamos o motivo de sua divisão. Bastava inverte-lo e ele voltaria a se multiplicar. Mas nem Aquele que Tudo Sabe (google) sabia do paradeiro de Arwen. Como não podíamos trazer a original de volta, a única saída seria criarmos uma. E para isso tínhamos Mosha.

– O processo é simples. – começou nosso amigo – Sabemos o que atraiu João 2 no passado. Basta recriar um perfil baseado no anterior. Uma Arwen 2.0, se preferirem. Eu crio o programa, não exatamente uma réplica, pois a cópia só nos faz lembrar que o original é sempre melhor. A “Arwen 2.0” será apenas baseada na primeira, com novas qualidades e alguns pequenos bugs, que, se o for o caso, será corrigido via patch de atualização pra 2.1. Crio o programa, tipo um worm e o solto na net, num canal de IRC que ele freqüente. O programa invadirá uma máquina, criará um padrão de luzes aparentemente aleatórios na tela que, através da retina da usuária da máquina, será transportado para o cérebro da mesma, alterando sobremaneira seus impulsos eletromagnéticos, o que a fará se comportar de modo análogo ao desejado.

Então – comecei a falar – iremos alterar a personalidade de alguém pra que nosso amigo se apaixone, seja correspondido, esqueça a Arwen e volte a ser o João 8 de que ouvi falar? Ora, o que estamos esperando, Mosha?”

E assim foi feito. O vírus infectou uma tal de Esterana em meados de novembro. Eles se conheceram pessoalmente, se apaixonaram e começaram a namorar no fim de Janeiro. E, a cada dia que passsava, víamos João 2 aumentar, não exponencialmente, mas, mesmo assim, aumentar. Um dia ele chegou novamente a ser João 8. Pena que o programa realmente estava bugado. Com o tempo, tornou-se obsessivo, possessivo. O que levou João 8 a dividir-se novamente. E desta vez, de maneira bem pior. A divisão acabou tornando-o João ½. E assim ele morreu novamente, tornando-se nada mais que um corpo sem alma, um ser que se movia, um amante desinteressado (pois mesmo estando morto, João 8 ainda era melhor que muitos outros vivos), um leitor medíocre, um pinguço.

Eventualmente, João 8 iniciou sozinho seu processo de recuperação, mas essa é outra história e não sou eu que vou contá-la.

— João Octávio
João 8, Nial e Martelo criados por ShadXen.
Todos os outros personagens criados por mim.
Essa história, como sempre, é ficcional, embora
baseada em fatos reais.