No qual descobrimos que canalhas também têm coração

(ele):

“Não sei se posso continuar com isso.
Não é desse jeito que funciona comigo.
Dormi com bastantes mulheres, Já fui ‘amigo de transa’ de algumas.
Isto aqui não é isso.
Não consigo me concentrar.
Tudo que vejo é você,
tudo que posso pensar é no que está vestindo,
no que está pensando,
como fica seu rosto quando goza.
Faz o quê, uma semana?
E parece que quando não estou com você, que estou fora de foco.
Como fez isto comigo?
Estou assustado.
Estou muito assustado.”

(ela):
“Eu também te amo.”

(retirado do episódio “Out of time”, da primeira temporada de Torchwood)

Viva

Antes de sentir, anestesiou.
Antes de competir, desistiu.
Antes de tentar, se desculpou.
Antes de sofrer, fugiu.
Antes de voar, cancelou.
Antes de casar, terminou.
Antes de provar, recusou.
Antes de navegar, enjoou.
Antes de amar, se fechou.
Antes de cair, nem tentou.

Antes de envelhecer, morreu.
Antes de morrer, não viveu.

V-i-v-a ! ! !

(texto retirado do blog Meu Conto de Fadas Particular, publicado pela Gata Borralheira. Continue escrevendo sempre assim, querida)

NOTA: Não sei se já perceberam, mas as melhores coisas na blogosfera são de autoria feminina (exceto, claro, o ótimo óbitu-diário, do nosso amigo ShadXen, que é macho). Portanto, recomendo bastante a leitura dos blogs que tão na minha lista de links.

O amadurecer de João 8

Esta é uma das incontáveis histórias sobre os primórdios de João 8 (assim mesmo, sem hífen, aspas ou nada do gênero). Sim, João 8, amigo do Grande S (que não gosta de ser chamado de grande, pois é modesto) e de Martelo.

Como dito, essa é uma de minhas primeiras histórias. Na época, não conhecia Martelo e só havia ouvido falar de S. Uma história tão antiga, mas tão antiga mesmo, que a lendária amizade entre Nial e eu ainda estava sendo forjada.

Nessa tempo, João 8 não se chamava de João 8 (vou referir-me a mim mesmo na 3ª pessoa, é mais interessante) e tinha outros amigos: a bela, porém triste, ou a triste, porém bela Arwen, Niel (não confundir com Nial, irmão de S), Nico e Terrível (que não era terrível).

Eu era criança e ela era criança, minha doce Arwen. E como crianças tínhamos aventuras formidáveis. Claro que nos amávamos. Claro que não admitíamos isso nem para nós mesmos, mas nos amávamos. E isso não importa nessa história. Ou importa, pensando bem.

Deixo novamente claro que foi há muitos e muitos anos já, embora a terra não fosse além-mar. E minha infância foi há tanto tempo que não havia internet. Porra, eu nem sabia o que era computador na época. Acho que ainda tava naquela de ler mônica e cebolinha e assistir duck tales (“tio patinhas”, como a gente chamava) no SBT. A grande maioria das ruas ainda eram de pedra e poucas árvores haviam. Uma na minha esquina, outra na de Niel e Arwen, não uma em toda porta como hoje.

Naquele tempo, crianças eram crianças até serem bem mais velhas do que costumam deixar de ser hoje. Não conheciam mais do que dois ou três quarteirões, exceto o da escola, se fosse longe. Mas não costumam ir longe. Porra, isso foi há tanto tempo que ainda se brincava de “se esconder” (pois “esconde-esconde” nunca foi um termo muito usado) à noite. Éramos ingênuos.

E João 8, como dizem por aí, sempre foi muito bom. Além da média. Perfeito, ou quase. Só faltava ser modesto. E como todo mundo com tais qualidades, ele despertava inveja de seus amigos. Terrível, numa tentativa de ser tão bom quanto João 8, queria ter tudo que ele tinha, ser tudo que ele era. Inclusive, queria importar tanto para Arwen quanto João 8 importava. Assim, ele vivia propondo desafios.

Em uma noite, há muitos e muitos anos já (adoro esse trecho de Annabelle de E. A. Poe), estavam os quatro reunidos no portão de João 8. Arwen parecia triste, depressiva, talvez doente. Tava tão estranha que não quis entrar nem pra assistir os desenhos da Rede Manchete. Niel, seu preocupado irmão disse que seria bom se tivéssemos a maçã para dar a ela. “A Maçã” seria a maneira correta. Quem não viveu o suficiente para saber de qual maçã falo, quem nunca a viu, assentada num pires, no meio duma rua estranha, cheia de mafiosos, não merece que eu explique de que se trata. Basta dizer que “A Maçã” podia curar qualquer ferida, dava ânimo pra continuar quando tudo parecia perdido. Melhor que “A Maçã” existia apenas o raro Frango. Mas encontrá-lo seria o mesmo que ver um milagre…

O que importa é que Terrível disse saber onde encontrar tal Maçã. Disse que tinha certeza que encontraríamos na terrível selva (para Terrível, tudo era terrível) que se encontrava ao final da rua, após atravessar o rio e além de onde os olhos podiam distinguir. Daria uma caminhada e tanto até lá. Uma hora ou mais. Claro que ninguém teria coragem de ir lá, pois o destino que aguardava quem quer que fosse seria terrível… Provavelmente uma surra dos pais e uma semana ou mais de castigo…

João 8 não tinha medo. Entrou em casa, calçou seu chinelo e começou a andar, sem nada dizer. Niel perguntou aonde ele iria. “Não está claro, idiota?”, respondera Terrível com outra pergunta. “Ele vai pegar A Maçã!”.

E foi isso que ele fez. Andou por quarenta minutos, se esgueirando pelas sombras, com medo de ser visto. Atravessou o assustador rio (um beco com cano estourado, meio inundado). Desafiou duas Bestas Infernais quase de seu tamanho, só escapando por subir num poste. Enfim, chegou à selva. Ou quase. Enormes paredes de pedra e um portão do mais puro e reluzente aço a guardavam. Parece que a selva tinha dono… Por três vezes João 8 tentou escalar as pedras e por três vezes caiu, na última cortando seu joelho tão profundamente que chegou a sangrar. Desapontado, iniciou seu caminho de volta, sem a Maçã…

Ao chegar, com os olhos cheios de lágrimas, não pelo corte no joelho, pois João 8 sempre foi homem, mas sim por falhar em sua missão, encontrou uma preocupada Arwen na esquina, sentada no meio-fio, esperando por ele. Sábia como só uma mulher dois anos mais velha conseguia ser, ela o abraçou forte (único abraço que ele conseguira dela em todos esses anos).

– Sinto muito, Arwen, eu falhei. Por minha causa, você vai continuar doente…

Nisso ela me abraçou, digo, abraçou João 8 mais forte e ele pôde sentir seu sorriso pelo ar quente que atingia sua orelha…

– Shh… Às vezes, meu amigo, meu bom e fiel amigo, o que importa é a trilha que percorremos e não o destino a que chegamos. Ouso dizer que quando crescer entenderá isso melhor do que eu…

E assim ficamos, por um bom tempo, abraçados. Minhas lágrimas molhando seu ombro, sua mão em minha cabeça, como mais que amigos, mais que irmãos, mais que amantes. Como crianças que começavam a descobrir o sentido desse mundo tão sem sentido em que vivemos…

-- João Octávio Anderson Trindade Boaventura
João 8, S e Nial criados por Lorde ShadXen.
Arwen, Niel e Terrível criados por mim.
História adaptada de um texto escrito 8
anos atrás por mim

Vinho, azeitonas, dúvidas

atenção: texto não recomendado para pessoas sensíveis. Esteja avisado.

Ele bem sabia que podia não haver amanhã. Pior: ele sabia que haveria um amanhã, e alguns outros poucos, assim como sabia que seria melhor que não houvesse. Mesmo assim, ele estava em paz, tinha um propósito, uma missão. Se tinha que morrer, não faria mal. Todos os homens morrem, mas poucos se tornam mártires.

Sim, um mártir. Era isso o que ele seria para alguns nos anos vindouros. Um verdadeiro motivo para guerras, revoluções. Mas, acima de tudo, ele pensava, um motivo para o fim das guerras. Mesmo sabendo que sua morte seria necessária, gloriosa, ele estava amedrontado. Sim, bastante amedrontado. Pois, mesmo dizendo que não, ele ainda era um homem e sabia da longa tortura que o afligiria nos dias por vir.

O pior é saber de tudo, TUDO, e nada poder fazer para mudar, ele pensava consigo. Que sua morte ira mudar algo ele sabia, mas seriam tais mudanças verdadeiras, merecedoras de seu sacrifício?

O que importa é que ele sabia que aquela seria sua última noite de paz e que estava com medo. Assim, reunindo-se com seus amigos, não aquela corja crescente que o seguia e adorava por onde passava, mas apenas por seu círculo pessoal, pelos primeiros amigos, fez o que todo homem sensato faria em tal situação: bebeu.

Sim, ele bebeu. E muito. Saiu da cidade, escolheu um local arborizado para tentar suavizar o calor das redondezas, sentou-se e começou a beber e comer com os amigos. As árvores sob as quais se sentaram, não por acaso, davam como fruto azeitonas. Vinho, para diminuir a tristeza da vida, e peixes e azeitonas para tira-gosto. Pena que sua amada, sua doce e proibida amada, não poderia estar lá. Ah, ele pensou, se ao menos as coisas pudessem ser diferentes, se eu pudesse ficar com ela, em paz, e esquecer essa guerra, essa perseguição… Mas ele sabia que vidas simples como a que queria sempre seriam negadas para homens como ele. Por tanto, sem alternativas, bebeu. Assim transcorreu o final da tarde e boa parte da noite.

Quando todos já estavam tão bêbados que dormiam ao relento, ele levantou-se, ainda temeroso em relação ao futuro. Trôpego, caminhou entre as oliveiras. Trêbado, começou a maldizer tudo. O povo de sua cidade, o povo que queria ser salvo e o que não queria, seus amigos, seus pobres e fracos e humanos amigos, seu pai. “Pai, Pai, por quê? Por quê?” ele gritava e gritava. Horas depois que começou, subitamente acabou: aceitando seu destino, percebendo que o aceitara éons atrás, reassumiu seu semblante sério, sóbrio agora, e voltou para onde deixou seus amigos. Lá, conforme esperado, seu melhor amigo, seu mais culto amigo, esperava com o exército que tanto queria o queria prender. Sua função: trair. Mostrar onde ele estava e, de todos lá, quem deveria ser preso. E, com um beijo, o fez. Assim começou a mais longa e dolorosa semana já registrada em nossos anais.


nota: sei que muitos vão se perguntar qual o sentido do texto, já que a história de Jesus é bastante conhecida, mas dia desses me peguei pensando nele como um Jesus Humano, cheio de dúvidas, que também era Deus, que sabia o porvir. Fico imaginando que qualquer um, em seu local, teria se comportado como descrevi aqui: tomado um porre daqueles. Espero que ninguém proponha minha excomunhão ou me chame de herege.