Sobre o que aconteceu com Jake

Sabem, esta história não deveria ser contada. Ela é totalmente sem graça. Nenhum, nenhum leitor vai se interessar. Mas fazer o quê? As notas que um dia comporão o livro sagrado do cara estão praticamente impossíveis de se trabalhar (traduzir ideogramas feitos por ébrios é terrível), meu ópio acabou há quase duas semanas, minha última namorada me abandonou, o barzinho próximo já está fechado. Então, é por absoluta falta do que fazer que conto esta história.

Creio que se lembram de Jake. Sim, aquele mesmo, pobre paspalho apaixonado pela sem-graça da June. Aquele que passou meses sofrendo por querê-la, tentando marcar um encontro. Aquele que entrou em depressão quando não pôde ficar com ela. Sim, é deste Jake que estamos falando.

Por incrível que pareça, ele não se matou após aquele encontro. Também não se aliou à Legião Estrangeira da França ou qualquer outra milícia. Tampouco mudou de cidade. A única coisa que ele fez foi entrar em profunda depressão por dois dias, sem sequer sair do quarto. No terceiro dia, leiloou uma flauta transversal que possuía, o anel de ouro de seu pai (sem que o velho soubesse) e alguns vídeos pornôs caseiros que fizera. Tudo isso ele vendeu no mercado livre e conseguiu uma boa grana. O suficiente pra pagar seis meses de aluguel num quarto barato, no pior bairro da cidade. Pois é, Jake alugou o quarto, pagou quatro meses adiantados e, com o restante da grana, comprou uma guitarra. Não era uma fender ou qualquer outras dessas famosas, mas mesmo assim era uma guitarra.

Neste ponto devo esclarecer que Jake era por demais inteligente. Aprendera a tocar violão com os amigos do pai, ainda criança. A flauta transversal, aprendeu a tocar na banda da cidade, quando tinha dezesseis anos. Só havia uma coisa que ele não conseguia fazer: cantar.

Jake jamais aprendera a modular bem o suficiente a voz. Quando cantava, qualquer canção, por mais cômica que fosse, parecia terrivelmente melosa, triste. Ele só sabia usar a voz normal, de conversar, ou essa arrastada. Mas devemos lembrar que Jake perdera o grande amor de sua vida há pouco tempo. Isso serviu pra transformá-lo em um legítimos blues man.

Já foi dito em algum lugar que para se tocar o verdadeiro blues tudo o que se precisava fazer era se apaixonar por uma garota, perder essa garota por algum motivo, encher a cara de uísque barato e pegar uma viola. Foi isso que Jake fez. E o fez bem. Muito bem. Logo, tornou-se extremamente popular, bem pago. Mas ainda assim sofria por June.

Os anos foram passando. June saiu da cidade, foi estudar fora. Jake continuou com sua carreira, de barzinho em barzinho, até abrir o seu próprio. Um barzinho diferente, esse era o nome e era o que ele era. Jake, claro, teve dúzias de outras mulheres ao longo desses anos, mas jamais amou nenhuma como amou a June.

Numa noite qualquer de um dia ordinário, após tocar em seu barzinho something dos Beatles, Jake a viu. Não, não me perguntem quem foi que ele viu, eu não sei. Mas sei que ele acha que viu. Na seqüência, tocou while my guitar gently weeps, do mesmo grupo. Não terminou a música. No meio do quinto verso (I don’t know why, nobody told you, how to unfold your love) ele parou de cantar, olhou pra baixo e disse ao microfone, “merda”, largou a guitarra no chão e saiu, pra espanto geral da clientela.

Depois disso, o que se sabe é que Jake pegou seu carro e partiu. Dizem as más línguas que passou em casa, deu um beijo na mãe, outro no pai e depois partiu. Outra versão da história diz que ele parou na porta da antiga casa de June, desceu do carro e começou a gritar pelo nome dela, dizendo que a amava. Mas isso são apenas especulações dos habitantes locais.

O que se pode afirmar com certeza é que Jake sumiu a aproximadamente dois anos e não deu notícias. Pelo menos, não até ontem. Hoje recebi um cartão-postal (será que ele nunca ouviu falar em fotografia digital e e-mails?) dele. Segundo o que consta no cartão, ele achou June pouco tempo depois que partiu. E não achou mais ser impossível ficar com ela. Eis o texto do cartão:

Caro Paracelso, escrevo pra avisar que estou bem. Reencontrei June numa cidade próxima daí. Conversei com ela, começamos a namorar. Casamos e nos mudamos para _______. Você deveria vir aqui. O cheiro do mar é bem agradável. Deixei de cantar e hoje, junto com June, administro nosso restaurante. Esperamos visitas.

Jake & June

P.s.: esperamos que nos visite logo, antes do nascimento de Sara, nossa primeira filha.”

E é isso. Jake desistiu de uma vida boa, de ter uma mulher diferente na cama toda noite que quisesse pra ficar com aquela menininha sem graça, cheia de sardas. Vai ter uma filha. Mora numa cidade litorânea e provavelmente está gordo. E ainda se acha feliz. Enquanto isso, eu fico aqui, tendo que relatar isso, simplesmente por não ter restado com quem beber…

— Paracelso de Antígona

desejando um pouco de calor

humano numa noite gelada

Sonhos de uma manhã de inverno

Esta noite sonhei com você. Foi um sonho lindo, maravilhoso (termos frescos estes, não?), você tinha só que ver. Sonhei que estávamos de férias.

Não, não estávamos de férias da faculdade, do trabalho ou algo assim: estávamos de férias do mundo. No meu sonho, estávamos os dois aqui em casa, deitados naquela minha rede velhinha do Flamengo (tá, eu sei que você é vascaína, mas o sonho era meu, pô!). A rede tava armada na sala, em frente à tv. Assistíamos Across the universe, ótimo musical, você deveria ver isso acordada. Estávamos na rede, eu só com meu short de pijama, você apenas de calcinha e sutiã, assistindo o filme e tomando sorvete.

Como é? Não, o pessoal aqui de casa tinha sumido, claro. Esqueceu que eu disse que tiramos férias do mundo? Pois é… Não havia nada, nem ninguém, pra incomodar a gente. Quer dizer, só eu que talvez estivesse incomodando seus ouvidos quando me empolgava com o filme e inventava de cantar… Tinhas que ver sua cara, o modo como você ria de mim enquanto eu cantava coisas como don’t let me down, all my loving, It won’t be long entre tantas outras… Ver você se dobrando de rir na rede enquanto eu cantava só me estimulava a continuar.

Você imagina o restante, não? A brincadeira tava boa, você rindo, eu me divertindo bastante e, como sempre nessas horas em que a infância parece voltar e há comida por perto, você enfiou a mão no balde de sorvete e jogou na minha cara, me lambuzando todo. Eu, claro, não gostei muito e fiquei sério. Fui pegar uma toalha pra me limpar. Você, arrependida, veio logo atrás, pedindo desculpas, me abraçando, dizendo “fica assim não, ‘tavinho…”… Claro que aprovei isso pra te derrubar no meu colo, fazer um pouco de cócegas e assanhar todo o seu cabelo (eu sei que você adora isso, embora diga que não). Daí começamos a nos beijar. O fato de você estar quase completamente nua, alí, como em tantas outras vezes, me deixou louco de tesão. Percebi que você também estava quando passei a mão na sua barriguinha, dava pra ver teus pêlos se eriçarem. Sem parar de te beijar, ficamos em pé. Te puxei pra canto da parede, coloquei uma mão na tua cintura e a outra na nuca, segurando um pouco forte com esta última, mas ainda assim de modo bem delicado, pra evitar machucar, sabe? Puxei um pouco teu cabelo, te forçando a inclinar a cabeça, o que deixou teu pescoço completamente exposto… Dei umas lambidas leves nele, em ambos os lados, depois desci um pouco, pelo meio até próximo dos seios… É, daquele jeito que sei te deixa doidinha… Bem no meio, sem pender pra lado nenhum, dando uma leve mordidinha… Nisso você conseguiu soltar a cabeça e começou a chupar minha orelha, a enfiar a língua em meu ouvido… Peguei novamente teus cabelos, repeti a puxada e comecei a subir novamente… Parei no teu queixo, mordendo de leve… Dava pra sentir que você estava louca, pois a maneira que esfregava teu corpo no meu revelava tudo… Daí, fastei um pouco, te coloquei na minha frente e, te abraçando por trás, fomos até o quarto…

E este foi meu sonho. No momento em que chegava ao quarto, acordei. Pena, não é? Pois foi assim mesmo: sonhei tudo isso e acabei de acordar. Por isso tô te ligando. O que acha de passar aqui em casa pra realizarmos o sonho?

-- João Octávio
que, apesar de estar ficando velho,
ainda acha que sabe como dar prazer a uma mulher.