Sonho de Ícaro

2006. Fim de ano, festa de réveillon. Um ano termina, outro começa. Esse terminou com um saldo negativo para muita gente: o Brasil perdeu instalações da Petrobrás para o governo boliviano, a França perdeu da Itália a Copa do Mundo da Alemanha, saiu o julgamento da Suzane von Richthofen (condenada trinta e nove anos e seis meses de prisão), Fidel Castro foi obrigado por motivos de saúde a delegar poderes para seu irmão, cento e cinqüenta e quatro pessoas morreram no acidente do vôo 1907 da Gol, parcela da população brasileira ficou indignada com a reeleição de Lula. Até o sistema solar sofreu uma grande perda: passou a ter apenas oito planetas quando Plutão passou a ser classificado como planeta-anão ou “plutóide” pela União Astronômica Internacional.

Alexandre Costa Souza, trinta anos, estava ciente disso tudo. Mas para ele, a maior perda do ano ocorrera em junho, quando discutira, em definitivo, com sua noiva, Simone, devido a um motivo qualquer, tão sem significado que até esquecido foi. E aqui estava ele, em Juazeiro do Norte, sua cidade natal, para passar as festas no Hotel Verdes Vales.

Como de costume, ligou para o hotel algumas semanas antes e reservou o quarto 212 no segundo andar. Ele adorava a vista do parque aquático a partir da janela daquele quarto. Como de costume, ele subiu às 22:20, abandonando as comemorações do tradicional “réveillondas” realizado no hotel. Como de costume, havia uma garrafa de vinho, Casillero del Diablo – ótimo vinho branco chileno – em um balde de gelo no balcão ao lado da cama. Havia também duas taças ao lado do balde e uma caixa de chocolates em forma de coração da empresa suíça Lindt, exatamente como sempre houve nos últimos quatro anos. E, pela segunda vez nesses quatro anos, ele chorou.

A primeira vez que Alexandre chorara no quarto 212 do Verdes Vales foi em 2002, quando, pela primeira vez, dormiu com Simone. Entraram no quarto, beberam três taças de vinho, comeram dois chocolates e foram para a cama. Começaram a se beijar, acariciar e logo estavam fazendo amor. Enquanto os corpos estavam encaixados, movimentos sincronizados, Alexandre declarava o seu amor por sua noiva (na época, namorada). Ele a amava, a idolatrava, a adorava. Jamais havia gostado tanto de alguém em toda a sua vida e tinha certeza – CERTEZA – de que queria passar o resto de sua vida com ela. Por isso ele chorou quatro anos atrás.

Desta vez a cena não foi tão romântica. Ele abriu a porta, acendeu a luz e encarou o quarto: a porta para o banheiro, o vinho, os chocolates, as duas taças e a cama. Demorou-se dois minutos olhando tudo. Puxou o saca-rolhas do bolso e abriu a garrafa com facilidade. Serviu as duas taças. Então, subitamente, ele se deu conta. Subitamente, ele percebeu: Simone não estava lá e não iria chegar. O ano fora uma merda, só acontecimentos ruins e terminava pior do que se poderia imaginar. Assim sendo, empurrou, com o braço direito, as taças, derrubando-as. Pegou a garrafa e começou a beber no gargalo mesmo. Caiu no chão, no macio carpete do hotel. Chorou, tirou, de um puxão, a camisa social branca com listras amarelas que usava, rasgando-a. Chorou mais e bebeu. Às 23:15, com a voz embolada, ligou para a recepção e pediu que lhe mandassem uma garrafa de J. Walker Green Label, sendo informado que o hotel não dispunha de tal bebida. Pediu então que lhe mandassem qualquer uísque. A garrafa de J. Walker Black Label chegou às 23:23. Às 23:57 ele decidiu pôr fim à própria vida.

23:59. Alexandre Costa Souza, descalço e sem camisa, cinto aberto, sobe no parapeito da janela e contempla a multidão no parque aquático. À meia-noite em ponto, começam os fogos de artifício. “Que se fodam! – pensava – Que se fodam o ano velho e seus inúmeros desastres! Que se foda esse ano novo de merda que tá começando. Que se foda a Simone e todos os seus problemas! Que se foda tudo! Pra mim, chega!”. Pensando nisso, jogou o corpo para frente e começou a cair, segurando uma garrafa de uísque com menos de um quarto do conteúdo.

Uma queda dessa altura costuma demorar cerca de dois ou três segundos apenas. Mas quando se está perto de morrer, dizem que a vida inteira passa diante de nossos olhos. Pois bem, no primeiro segundo, Alexandre lembrou-se de sua infância, seus pais, avós, brincadeiras de colégio, faculdade, drogas que provou, primeiro emprego, várias transas e de Simone. O segundo seguinte se passou com lágrimas escorrendo pelo rosto e a o nome dela em seus lábios. No terceiro segundo, podia-se ouvir um som de garrafa quebrando e ver um pouco de uísque manchando a grama, além da sombra de uma ave.

A menos de cinqüenta centímetros do chão, algo que, na falta de definição melhor do que milagre, se operou: Alexandre se transformou em uma ave, uma coruja, pra ser exato. Deu um rasante no gramado, atravessou os muros, passou pelas piscinas do parque aquático e partiu. Voou sem destino certo por algum tempo. Por fim, pousou no quintal de sua casa. Lá, ele reassumiu forma humana e desmaiou.

Ao acordar, horas depois, Alexandre entrou em casa, espantado com o que ocorrera. Tomou um banho, escovou os dentes e tomou uma xícara de café bem forte, sem açúcar, que ele mesmo preparara, para ver se diminuiria os efeitos da ressaca. À tarde, fez algo que não fazia desde a infância: subiu no telhado e ficou observando o horizonte, até o sol se pôr. Sem entender muito bem o motivo, tirou a camisa e ficou em pé, na beira do telhado. A queda, com certeza, não o mataria: eram apenas dois metros e meio de altura. De repente, ao esticar os braços em forma de “T”, ele sentiu uma dor forte nas costas, como se algo o rasgasse de dentro pra fora. Apesar de forte, a dor era acompanhada por uma sensação indescritível de prazer. Um prazer tão absoluto, tão masoquista, que só poderia ser comparado a um ato sexual perfeito: aquele em que os amantes se amam com tanta sofreguidão, com tanta intensidade, que chegam a sentir dor no prazer que causam um ao outro ou prazer na dor que sentem. Foi sentindo isso que ele se curvou, dobrando-se sobre os joelhos. Quando a sensação passou e ele viu sua sombra, começou a rir.

Sim, Juazeiro do Norte, terra do Padre Cícero, realmente deve ser uma terra dos milagres. Só isso para explicar a metamorfose que ocorreu: Alexandre criara asas. Longas asas de penas perfeitamente brancas. Tão brancas que fariam os olhos doer, se fossem olhadas ao sol. Alexandre riu, ficou em pé e pulou. Bateu asas e começou a voar.

O que terá sentido Prometeu ao roubar o fogo divino? Sentia Thor prazer nas tempestades que causava? Era Baco tão alegre? Alexandre, tão qual a sombria Persérfone que se transformava em Coré, a bela, havia se transmutado. Era meio homem, meio pássaro. E era feliz. Sua depressão havia sumido, ele nem lembrava que um dia amara Simone. E, tal qual Ícaro, voava sem limites, tão alto quanto podia, às vezes tão baixo que chegava a poder tocar o solo.

E assim o tempo foi passando. Alexandre, sempre feliz, se tornou extremamente produtivo. Foi promovido na empresa na qual trabalhava. Passou a ganhar mais, mas não se importava com isso. Apenas fazia tudo o que lhe ordenavam, pois sabia que no final do dia, quando chegasse em casa, seria realmente livre, mais livre do que qualquer outra pessoa poderia ser.

Mas eis que chega o sete de fevereiro. O Brasil inteiro fica chocado com a morte do menino João Hélio, arrastado por sete quilômetros pelas ruas do Rio de Janeiro, após um assalto. Nessa noite, Alexandre ficou deveras triste. Decepcionado com a maldita raça humana, subiu novamente em seu telhado. Dessa vez, ele forçou a transformação até abandonar a forma humana. Transformou-se totalmente em ave, uma coruja de penas brancas, e partiu, sem destino.

Durante seu longo vôo, a coruja que horas antes fora Alexandre Costa chegou à igreja dos franciscanos, em bairro de mesmo nome. Lá, foi atraída pelo pio de outra coruja, em uma das torres. Era uma coruja fêmea, toda branca também, porém bastante mal-tratada. Tinha as penas sujas, sua torre estava cheia de bolotas. Mesmo assim algo aconteceu. Esse algo, na falta de definição melhor, chamaremos de atração animal. Ambos transaram como aves. Então, ela levantou vôo e ele a seguiu. Quando estavam a uma altura considerável, ela começou a se transformar: transformara-se em uma menina de asas, uma bela garota de cerca de dezesseis anos, bastante suja e com cabelo desgrenhado, mas ainda assim bastante bela. Surpreso, ele reassumiu forma humanóide também. Ambos voaram até a altura-limite. Encaixaram-se, começando novamente o ato sexual, e começaram a cair.

E assim fizeram amor. Algo brutal, selvagem, cheio de mordiscadas e arranhões, sem limitações quanto ao espaço. Não havia uma cama para ficarem em cima ou canto de muro para apoiarem-se. Apenas o céu infinito e suas possibilidades. Assim ficaram, encaixados, excitados com a queda e rapidamente gozaram. A aproximadamente dez metros do chão, separaram os corpos e interromperam a queda livre, batendo as asas e voando em direção à torre da igreja. Lá, ela assumiu aspecto totalmente humano, sem asas, deitou-se no chão sujo, enrolada em si mesma, e dormiu. Ele a observou dormir por um tempo e depois foi embora.

Assim ambos continuaram, sempre se encontrado nas madrugadas, fazendo amor e separando-se. Ela nunca falou nada, embora ele sempre tentasse. Pelo visto, talvez não soubesse falar. Talvez tivesse passado tanto tempo como ave que desaprendera a língua humana, quem sabe. Só se sabe que no dia 19 de fevereiro, mesmo dia em que a França aboliu a pena de morte, ela o acompanhou, como coruja, até a sua casa e fixou residência em seu quintal, fazendo um ninho em uma árvore que lá existia.

Apesar dos esforços de Alexandre, sua companheira relutava em assumir forma humana e viver no interior da casa. Sem nada poder fazer, ele aceitou e foi feliz com ela, enquanto durou.

No dia dezessete de julho, ocorreu o trágico acidente do vôo 3054 da TAM no Aeroporto Internacional de Congonhas – SP, com 199 mortos. Alexandre não percebeu a notícia, ou não se importou com ela, pois nessa mesma manhã a coruja colocara ovos. Ele, de uma maneira estranha, seria pai. E, por isso, estava feliz.

Mas a felicidade dura pouco. Na quarta-feira, primeiro de agosto, mesmo dia em que a Inglaterra cessou a ocupação da Irlanda do Norte (foram trinta e oito anos de ocupação), enquanto trabalhava, um vizinho, há muito incomodado com o pio das duas corujas, pega um espingarda de chumbinho e alveja o ninho, matando a coruja e destruindo os ovos.

Alexandre chegou em casa às 17:25, como sempre. Retirou os sapatos assim que entrou em casa, tirou a gravata e a camisa. Bebeu um pouco de água e tirou o restante da roupa. Dessa forma, pelado, pronto para a transformação, foi para o quintal. Lá chegando, caiu de joelhos ao ver a triste cena: a árvore possuía incontáveis marcas de chumbo, haviam cascas de ovos quebrados no chão e uma garota, aparentando dezesseis anos, de belo corpo, mas bastante suja e de cabelo desgrenhado, morta, em cima de uma poça de sangue e penas, ao lado da árvore. Alexandre gritou. Não um grito humano, de dor, mas algo mais profundo, talvez arrancado do fundo de sua alma: um grito lúgubre, indicativo de perda, comparável ao das banshees irlandesas ou, talvez, comparável ao terrível pio da coruja conhecida no nordeste como rasga-mortalha. Ele passou a noite toda gritando e gemendo, e nenhuma criança na vizinhança conseguiu dormir.

No dia seguinte, não foi trabalhar. Fez uma cova rasa (quatro palmos) no seu quintal, ao lado da árvore, e lá enterrou a garota cujo nome nunca soube. Na sexta-feira, dia três de agosto, ele começou a se embebedar novamente.

Dizem que Alexandre saiu de casa às sete da manhã, vestindo uma calça amassada, uma camisa abotoada errado e com os cabelos cheios de terra. Saiu, sentou no barzinho da esquina, foi olhado pelo canto dos olhos do balconista que nunca o vira lá e pediu “uma dose de seu pior veneno”. Verteu a dose de um gole só. Pediu a garrafa, pagou e bebeu na calçada, aos soluços. Jogou a garrafa vazia em sua própria porta, quebrando-a, e saiu, cambaleando, com destino incerto. E assim passou o resto do dia, de bar em bar, tentando achar no fundo de uma garrafa um sentido para sua vida, um sentido que só antes encontrara no topo de uma torre suja de igreja.

Desesperançado, por volta das 23:05, passando na rua Padre Cícero, em frente ao prédio da telemar, ele olhou a torre e pensou: “por que não?”. Pensando isso, começou a andar em direção a tal torre e depois a escalá-la. Ao chegar ao alto, abriu os braços e, novamente, deixou-se cair.

Dessa vez ele não reviu toda sua vida. Apenas se lembrou da felicidade que tivera junto à coruja, da beleza de voar, da esperança no futuro que teve ao ver os ovos pela primeira vez. Chorou. Abriu os olhos e pensou: “Foda-se”.

No dicionário, foder significa, entre outras coisas, copular, ter relação sexual, transar, trepar, causar mal a ou sair-se mal; arruinar(-se), desgraçar(-se); não dar importância, não fazer caso. “Foder-se”, da maneira que foi utilizado, é uma palavra de negação ou de aceitação resignada de algo. Pois foi isso que Alexandre fez nos últimos instantes de sua queda: deu um foda-se para tudo. Aceitou que a morte era inevitável, que a felicidade é só a ausência momentânea da infelicidade. Mas, ao mesmo tempo, recusou-se a aceitar isso. A morte é inevitável, mas viver é uma escolha. Agora, ele podia voar, tinha todo o céu ao seu alcance. Por que deveria terminar espatifado numa calçada qualquer, numa sexta qualquer?

Assim, pela última vez, ele estendeu suas asas. Deu um rasante e, num movimento parabólico inverso, alçou vôo rumo aos céus. Voou para longe e sua forma humana nunca mais foi avistada por essas cercanias.

João Octávio Anderson Trindade Boaventura
feliz por finalmente ter terminado este conto

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Tempestade divina

Mortais, ó adorado mortais, vós sempre sabeis quando estou triste, mas regojizam-se quando acontece. Meu coração enche-se de uma fria bruma, tão fria que quando bate, sinto como se mil farpas de gelo o trespassassem, causando tão insuportável dor que por trás dos meus dentes, minha garganta urra um som tão primordial ouvido por vocês que me chamam de Deus do Trovão, parecendo que o céu vai rachar.

Dos meus profundos e imortais olhos, uma lágrima cristalina rola pelo meu rosto, caindo pela fenda do meu queixo, diluindo-se em milhões de gotas, tornando-se uma torrencial em suas terras. Torno-me furioso. O ar que foge de minhas narinas coléricas formam tornados destruindo teus campos. O meu poderoso braço percorre o cabo de meu martelo, golpeando contra teu céu. Suas faíscas transformam-se em raios que assombram tuas crianças.

Sentado no meu trono, posso ver os nove mundos. Espero em vão meu servo mortal trazer meu mulso negro, borbulhante e ardente. Espero em vão, pois meu amigo de décadas acabara, eu o plantei embaixo de uma árvore de oliveira, mas bebo em sua honra, mesmo assim.

Tornei-me triste ao ver um mortal sofrer por uma pessoa amada perdida. E lembro-me que nem mesmo um deus está livre de tal flagelo.

— by Jr. Wolverine
pois ele é o verdadeiro Thor, filho de Odin

História de mulher

Era uma vez uma garotinha. Nascida no início dos anos 80, foi criada por uma família normal, com pai e mãe normais. Não teve irmãos ou irmãs. Mas pode-se presumir que amigos na infância não faltaram.

Era uma garota como qualquer outra nascida nessa época: magra, esbelta, cabelos compridos e com uma franjinha. Na verdade, os cabelos compridos e o fato de sempre usar camisa (meninos costumam andar na rua só de short) eram os únicos indicativos de que ela era uma garota. Naqueles tempos, as crianças costumam deixar de ser crianças bem mais tarde, logo, até por volta dos quatorze anos a menina era o que hoje se costuma chamar de tábua: não possuía bunda nem seios salientes.

Era dona de uma beleza diferente, raramente compreendida. Possuía sardas em excesso, espinhas não mais que o normal e um pequeno problema de ortodontia. Não que tivesse dentes feios, ao contrário. Eles simplesmente não eram perfeitamente alinhados, o que, juntado a todos os outros fatores, fazia dela motivo de gozação e escárnio por seus colegas de sala.

Foi provavelmente ao chegar nos quinze que ela começou a desenvolver seu corpo. Seios começaram a ficar protuberantes, uma bundinha começou a preencher os espaços antes vagos de suas calças. Infelizmente, hormônios são coisas bizarras. Não se sabe o que deu errada (progesterona de menos, testosterona acima do normal pros padrões femininos?), mas junto dessas qualidades surgiu um pequeno defeito: um bigode. Não aquela pelagem fina, que se costuma encontrar acima dos lábios de algumas mulheres e, que diga-se de passagem, às vezes é até charmoso, mas uma camada espessa de pêlos. Era um bigode que faria inveja a alguns meninos de sua idade.

Imagina-se o quão difícil foi este período: garotas troçavam e garotos desprezavam. Os únicos que se aproximavam dela a viam como nada mais do que um objeto sexual fácil, embora assim não o fosse. Afinal, eis a lógica usada: “se ela é feia, ninguém quer. Se ninguém quer, ela aceita qualquer um. Se aceita qualquer um, faz qualquer coisa pra mantê-lo. Logo, sexo deve ser fácil, fácil”. Infere-se facilmente, infelizmente, que esse tipo de atitude devia deixar a menina em questão deveras triste, depressiva e reprimida.

Um dia, ela conquistou uma amiga. Na verdade, encontrou ou esbarrou seria mais correto, já que nada foi feito para conquistar. Não se sabe muito bem como isso se deu: se encontraram-se por acaso numa festa, na casa de um amigo, numa caminhada pelo parque, numa sala de aula. Afinal, isso faz muito tempo e ninguém costuma lembrar como conheceu um amigo. Sabe-se que essa amiga era o oposto dela: um pouco mais jovem, mas bem mais bonita (cabelos castanhos ondulados, olhos castanho-claros, seios fartos, cintura definida e um sorriso capaz de fazer qualquer macho babar) e sexualmente bem decidida. Apesar das diferenças, realmente se tornaram amigas. Nessa época, influenciada pela nova companheira, ela resolveu dar um trato no visual.

Em poucos meses, nossa garotinha se tornou uma mulher. Passou a depilar seu bigode (que nunca mais foi visto), a usar blusas decotadas e saias e calças que ressaltassem suas belas pernas. Tornou-se atraente. Passou a ser assediada pelos colegas de sala (agora, na faculdade, não no colégio). Teve experiências sexuais e amorosas, às vezes uma ou outra, às vezes ambas de uma vez.

Um dia ela se apaixonou de verdade e foi correspondida, vejam só. Dizem que o cara era desses exemplares hoje raros de se ver: gostava de andar a pé com ela, abraçado. Quando saiam, ele sempre lhe puxava a cadeira. Costuma sentar sempre próximo e, vez por outra, do nada, dar um beijo e abraço demorado. Daqueles que hoje em dia só se vê em público quando o casal é jovem e o relacionamento é recente.

O relacionamento foi intenso. O rapaz, jovem sonhador, aspirante a escritor que ainda morava com os pais, embora possuísse bom emprego, foi logo aceito pela família da moça. A moça foi aprovada pela mãe do rapaz. Em poucos meses, eles praticamente já moravam juntos: era comum ela dormir na casa dele, usar as roupas deles, abraçar de manhã a mãe dele (ainda usando só um camisão dele) como se fosse a sua.

Um dia, sem preparação nenhuma, sem aviso nenhum, ele chegou pra ela e exibiu a mão direita: “olha só, amor: O que você acha dessa coisa que achei nas gavetas de minha mãe?” A “coisa “ tratava-se de um fino anel de ouro no centro de sua mão. “Bonita, muito bonita. Linda, na verdade. Por que foi que sua mãe trocou essa aliança pela que ela hoje usa?” “sei lá – ele respondeu – Mas se você achou tão bonita assim, por que não usa? Acho que cabe direitinho no teu dedo. E, olha só!, tem outra aqui que cabe direitinho no meu”. E assim, com um diálogo desses, ele a pediu em casamento. Alguns segundos demoraram pra ficha cair, pra menina se tocar do que estava acontecendo. Quando ela se deu conta, começou a chorar (coisa típica de mulher, nunca vou entender) e o abraçou com força. O sexo que fizeram naquela noite até hoje é lembrado por ela com um carinho enorme.

Mas a vida nunca sai como esperamos. Como diria Tom Hanks em Forrest Gump: “A vida é como uma caixa de bombons: você nunca sabe o que vai encontrar dentro”. Tudo estava perfeito, tudo estava lindo demais pra ser verdade. Parecia até um sonho. Um sonho do qual nossa garotinha (agora uma mulher, vale lembrar) foi bruscamente acordada: numa madrugada idiota qualquer, um idiota qualquer causou um acidente estúpido demais com seu noivo. O socorro chegou tarde demais e ele faleceu.

Nossa mulher voltou a ser uma garotinha: triste, pesarosa, chorona. Sem sair do quarto por meses. Perdeu peso, quase voltou a ser uma tábua de tão magra que ficou. Parecia que ia morrer de tristeza. Mas nessas horas, ter amigos é bom: aquela velha amiga, aquela que a ajudara a crescer, a se transformar em mulher, a ajudou a sair da fossa. A arrastou novamente pro mundo dos vivos.

Se ela um dia conseguiu superar a morte de seu amado? Impossível responder. Dois anos se passaram, ela já amou outros. Mas mesmo assim, em algumas noites frias, sozinha em seu apartamento, ela chora até de tarde lembrando o quão bom era dormir de conchinha com ele…

— João Octávio A. T. Boaventura
texto escrito em homenagem às meninas do Morangos Amargos.