Rima Infernal

Em uma noite escura e sombria,
com pouco sono estava eu,
mesmo assim, feliz dormia,
sem suspeitar da proximidade do fim meu.

Em casa cheguei, do trabalho.
Pus, com um beijo, meu filho a dormir.
Com meu pai, joguei um pouco de baralho.
Às onze horas, deixei o sono vir.

Sonhei com minha esposa.
Minha esposa, que já está morta.
Sonhei com minha esposa,
bela, jovem e carinhosa.

Sonhei com minha esposa,
minha esposa, que já está morta.
Fétida, putrefata, horrorosa,
minha esposa, já toda decomposta.

Sobressaltado acordei,
fui ao banheiro lavar o rosto.
Lá, um reflexo estranho encontrei,
pois sério estava eu e ele com um sorriso posto.

Pra dentro do espelho ele me levou.
Lá, encontrei um inferno.
Tal visão meu estômago sublevou.
E meu reflexo, todo bem vestido, de terno,
ao me ver, assim falou:

“Muito mal fizeste em vida.
Viveste de modo tão libertino,
que o Céu não te dará guarida.
A um tormento sem igual te destino!”

Como de um sonho surgiu minha esposa,
minha esposa, que já está morta.
De olhar triste, porém muito corajosa,
em sua mão esquerda uma adaga ela porta.

Como num sonho, minha esposa me salvou.
Minha esposa, com quem muito fui feliz,
minha esposa, que nunca me abandonou,
ajudou-me a fugir do carrasco-juiz.

Para minha cama volto, aliviado.
Vejo que meu filho dorme em paz.
Logo volto a dormir, pois estou cansado.
Durmo, desejando não ver um espelho nunca mais.

— João Octávio A. Trindade Boaventura
tentando voltar a escrever…

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Pesadelo

Não são os sonhos ruins que me deixam
triste, e sim os felizes. É horrível acordar
e perceber que eram apenas sonhos”

Faz tantos anos que trabalho nesta mansão que não consigo sequer lembrar quando comecei. Fui acolhido pelo senho Thomas quando ainda era jovem e o servi – e à sua esposa – enquanto viveram. Hoje tenho o prazer de servir ao patrão Bruce, que vi crescer e se transformar no homem mais digno que se possa imaginar.

A história que hoje conto é sobre a única vez em que vi meu patrão chorar após a morte dos pais. Ele estava exausto, bastante cansado e levemente adoentado fazia semanas. Mas como todo jovem, ele sempre achava que isso não era nada, que sempre podia passar mais uma noite por aí, fazendo o que ele faz. Pelo visto, os – como é que os jovens chamam mesmo? – “pegas” de ontem com a senhorita Kyle o exauriram. Essa noite ele dormiu até mais tarde. E acordou gritando pela mãe, pela patroa Martha – que Deus a tenha! – pela primeira vez, após mais de vinte anos.

Ao entrar no quarto, o que vi não era o homem que pagava meu salário e que criei como se filho meu fosse. O que vi foi uma criança de trinta e dois anos, sentado no chão, enrolado com o lençol e chorando e soluçando. Isso foi o que ele me disse quando conseguiu se recuperar:

– Alfred, velho amigo, eu tive um pesadelo. Sonhei que meus pais morriam, mas que era tudo diferente. Que ficamos pobres – nesse ponto fui obrigado a intervir, pois nem se quiséssemos poderíamos dilacerar a fortuna angariada pelo patrão Thomas – Sabe, pobres, mas felizes. Você, mesmo com recursos bem mais parcos, cuidava de mim como nenhum pai conseguiria – exatamente como fez. Eu comecei a trabalhar cedo, como um reles operário de uma fábrica qualquer. E achei o Amor de Minha Vida.

“Ela era perfeita, Alfred. Linda, maravilhosa. E me amava. Ela. Me. Amava. E eu sabia que me amava pelo que eu era e não pelo que eu tinha, pois eu não tinha nada. Ela. Me. Amava. Deus, Alfred, como isso dói. Fomos felizes, eu, ela e você. Tivemos filhos, dois, e você me ajudou a criá-los tão bem como me criou.”

Dizendo isso, ele se levantou, enxugou as lágrimas e parecia que não tinha chorado. Desceu, pegou sua roupa no armário e saiu no seu carro preferido. Hoje, eu tenho pena daqueles que cruzarem seu caminho.

— Alfred Pennyworth

(personagens são copyright e trademark da DC Comics,
uma divisão da Time-Warner. E o sonho aconteceu comigo,
embora eu estivesse acordado quando o tive)