Ressureição e Morte de João 8

<!– @page { margin: 2cm } P { margin-bottom: 0.21cm } –>

DOS ARQUIVOS DE BIGODE:

“Aquele que está quase morto ainda vive, mas quem está quase vivo já morreu”. Não sei de quem é a autoria desta frase, mas ela com certeza serve para descrever o estado em que se encontrava aquele que um dia se tornaria um dos meus melhores amigos quando o conheci. Quase vivo. Morto. Sem norte. Assim se encontrava João 8 (grafado assim mesmo, sem aspas, hífen ou qualquer outro sinal gráfico).

Conforme o que o próprio me contara, além de relatos de amigos e parentes próximos (Nial, Martelo – também conhecido como Canela – entre outros), João 8 morreu – fracionou-se, como ele prefere referir-se a esse fase – cerca de quatorze anos atrás. No dia em que descobriu que Arwen partira, provavelmente para sempre, de sua vida.

Aqui cabe uma pequena observação pessoal minha: João 8 começou seu processo de fragmentação meses antes do fato em si. Tanto que poucos dias antes da referida partida, a pessoa citada disse com todas as letras amá-lo (“levei uma surra de meu pai uma vez porque disse que queria namorar contigo”) e nosso colega, ao contrário do que faria hoje, permaneceu mudo, calado, sem palavras, sem nenhum chiste jocoso. Apenas soltou a mecha de cabelo que segurava e a olhou, em silêncio. Ela, claro, o olhou e achou-se não correspondida. Foi embora sem nada falar. Quando João 4 (sim, ela já se começara a se fracionar nessa época) percebeu que deveria falar algo, três dias depois, soube que já era tarde: Arwen, assim como seu irmão Niel, já tinha ido embora, em direção ao Oeste, algo que o mesmo convencionou chamar de Portos Cinzentos em alusão ao Senhor dos Anéis.

Quando o conheci, pode-se dizer que ele já era João 2. Quase morto. Um homem agarrado a uma paixão impossível há mais de sete anos. Nessa época, ele se tornara quase uma máquina, um ser totalmente racional. Alguém que quando perguntado o porquê de nunca ser visto sorrindo respondia que assim não fazia porque não havia motivos. Alguém que se questionava coisas como “Por que a soma dos quadrados do cateto é igual ao quadrado da hipotenusa, mas essa não é igual à soma dos catetos? Por que dois quadrados, ao se somarem, formam um ‘retângulo’, um número que não é necessariamente quadrado?, entre outras asnices. Alguém, cujo único sinal que dava de um dia ter sentido algo era a predileção pelo poema Anabel Lee, de Edgar Alan Poe. Enfim, alguém chato pra cacete.

O que importa é que acabamos nos afeiçoado a esse ser de estranha figura. Assim, Nial, Martelo, Galeto e eu resolvemos fazer o impossível: elevá-lo novamente à quarta potência. Ressuscita-lo. Transforma-lo novamente em João 8.

Claro que não sabíamos que o motivo era falta de mulher. Até suspeitávamos, mas não sabíamos. Para ter essa certeza, tivemos que investigar pesadamente durante quase um ano. Martelo o levava pra beber, pra ver se o homem falava. Não adiantou. Ele sorvia o líquido em completo silêncio. Nial leu toda a vasta coleção de quadrinhos que o mesmo possuía. Percebeu apenas que as revistas mais cuidadas eram as mais tristes, mais melosas. Galeto o provocava com piadas infames até o que achávamos ser o limite de sua paciência, mas o mesmo jamais reagia. Eu fiz um estudo de lingüística, aprendi a decifrar hieróglifos e ideogramas. Só assim pra entender a garrancheira que o rapaz escrevia. Reunimos tudo que sabíamos (o que era bem pouco) e levamos pra Mosha analisar.

Mosha era um ser estranho ao nosso círculo. Surgiu do nada, acompanhado do Demo, mas provou ser de valor e o deixamos ficar. Mosha era especialista em desperdiçar tempo na internet com coisas inúteis: invadir computadores alheios só pra frescar, criar scripts para Mirc (dizem que ele contribuiu, em um de seus dias gays, para a criação do scoop script), jogar RPG de uma maneira que fazia ninguém querer mais jogar com ele, entre outras coisas. Fora que era expert em contar vantagem. Por isso recorremos a ele.

Mosha pegou todos os dados esparsos que tínhamos e os compilou. Além disso, fez uma vasta pesquisa (google?) sobre nosso amigo. Enfim, Mosha se pronunciou de uma forma que tive que anotar:

– Amigos, após uma longa e exaustiva pesquisa, análise de fatores e tudo o mais, eu descobri a equação fundamental de João 8. Mas ela não fazia sentido. Era uma aberração, matematicamente falando. Era como se A+B fosse diferente de B+A, entendem? Não fazia sentido. O que quase me deixou louco. A equação tinha como resultado uma certa Undomiel, mas isso ia de encontro a todo o resto da pesquisa que desenvolvi. Como eu disse, estava ficando quase louco. Aí resolvi realmente ficar louco. Fumei meu cachimbo de ópio. Cheirei pó. Misturei fanta com coca e bebi. Só então, completamente chapado, percebi a solução e quase morri de rir: “Undomiel”, é, na verdade,  o sobrenome de “Arwen”, o nome de uma ex-vizinha dele.

Isso, claro, nos deixou aliviados. Sabíamos o motivo de sua divisão. Bastava inverte-lo e ele voltaria a se multiplicar. Mas nem Aquele que Tudo Sabe (google) sabia do paradeiro de Arwen. Como não podíamos trazer a original de volta, a única saída seria criarmos uma. E para isso tínhamos Mosha.

– O processo é simples. – começou nosso amigo – Sabemos o que atraiu João 2 no passado. Basta recriar um perfil baseado no anterior. Uma Arwen 2.0, se preferirem. Eu crio o programa, não exatamente uma réplica, pois a cópia só nos faz lembrar que o original é sempre melhor. A “Arwen 2.0” será apenas baseada na primeira, com novas qualidades e alguns pequenos bugs, que, se o for o caso, será corrigido via patch de atualização pra 2.1. Crio o programa, tipo um worm e o solto na net, num canal de IRC que ele freqüente. O programa invadirá uma máquina, criará um padrão de luzes aparentemente aleatórios na tela que, através da retina da usuária da máquina, será transportado para o cérebro da mesma, alterando sobremaneira seus impulsos eletromagnéticos, o que a fará se comportar de modo análogo ao desejado.

Então – comecei a falar – iremos alterar a personalidade de alguém pra que nosso amigo se apaixone, seja correspondido, esqueça a Arwen e volte a ser o João 8 de que ouvi falar? Ora, o que estamos esperando, Mosha?”

E assim foi feito. O vírus infectou uma tal de Esterana em meados de novembro. Eles se conheceram pessoalmente, se apaixonaram e começaram a namorar no fim de Janeiro. E, a cada dia que passsava, víamos João 2 aumentar, não exponencialmente, mas, mesmo assim, aumentar. Um dia ele chegou novamente a ser João 8. Pena que o programa realmente estava bugado. Com o tempo, tornou-se obsessivo, possessivo. O que levou João 8 a dividir-se novamente. E desta vez, de maneira bem pior. A divisão acabou tornando-o João ½. E assim ele morreu novamente, tornando-se nada mais que um corpo sem alma, um ser que se movia, um amante desinteressado (pois mesmo estando morto, João 8 ainda era melhor que muitos outros vivos), um leitor medíocre, um pinguço.

Eventualmente, João 8 iniciou sozinho seu processo de recuperação, mas essa é outra história e não sou eu que vou contá-la.

— João Octávio
João 8, Nial e Martelo criados por ShadXen.
Todos os outros personagens criados por mim.
Essa história, como sempre, é ficcional, embora
baseada em fatos reais.

Anúncios