Requiém para um amigo

Quando ele chegou à minha casa, eu pouco mais era que uma criança: inocente, não percebi que aquele recém-nascido não seria criado como um amigo ou irmão, mas, no máximo, como um escravo.

Os anos foram passando e, embora eu fizesse todo o possível para aliviar seu tormento (quão tormentosa é a ausência da liberdade!), para diminuir seu sofrimento (fazia tarefas que seriam tipicamente suas, alimentava-o com minha comida, etc), ele parecia envelhecer bem mais rápido que eu.

Vale salientar que, quando jovem, ele não parecia se importar muito com sua condição de escravo: minha amizade era suficiente para faze-lo feliz e livre por alguns minutos. Sim, éramos amigos inseparáveis quando crianças: nas noites de chuva, eu abria minha janela e o deixava dormir na minha cama, tal qual fosse um irmão, um filho, ou um amante.

Infelizmente, os anos foram passando e eu fui crescendo. Não mais o procurava para brincar, não pedia sua opinião sobre mulheres – meu pobre amigo fora castrado ainda jovem – e não discutia os mais sérios assuntos com ele – como um ser sem instrução nenhuma poderia me ajudar a achar solução para os problemas que percorriam meus pensamentos?

Enquanto eu crescia e dele me distanciava, sua condição de serviçal foi se tornando mais clara: nossa propriedade foi invadida diversas vezes e ele, sozinho, teve de expulsar os invasores. Isso, mais o fato de que sua alimentação se tornara precária com minha ausência – muitas vezes ele tinha que caçar para sobreviver – foram debilitando sua saúde, catalisando o seu processo de envelhecimento. Hoje, boa parte de seus dentes já caiu, sua audição não é mais mesma e ele está quase cego de um olho.

Poucos dias atrás, enquanto eu estava fora, ouviu-se um barulho estranho no terreno que cerceava a casa. Quando criaram coragem para ir ver o que estava acontecendo, viram que meu velho amigo travava novamente uma batalha, cumprindo seu dever de servo leal e protegendo seus mestres a qualquer custo. Tal batalha ele venceu sozinho, mas o preço cobrado fora alto: seu coração não aguentou e, doente, ele tombou.

Quando cheguei em casa, encontrei todos em luto: ele, que se tornara mais que um servo, mais que um bom amigo, estava morrendo, e nada podia ser feito. Nada, a não ser orar pela sua alma.

Espero, grande amigo, que Odin reconheça que morreste em decorrência de uma batalha e que te reserve um lugar de honra no Valhala. Espero que quando minha hora chegar, eu possa te reencontrar lá.

(eu sei que o conto está bem aquém dos anteriores, mas foram uns 3 meses ou mais sem escrever nada e a versão original dele foi roubada junto do meu notebook anterior. Prometo tentar melhorar os próximos textos)

Anúncios

Uma nova versão do conto da chapeuzinho vermelho e o lobo

LOBOS E CAPUZES VERMELHOS

“Quanto mais doce a língua, mais afiados os dentes.”

Charles Perrault

Era uma vez uma garotinha que foi visitar a sua Vovó. O nome dessa garotinha era Chapeuzinho Vermelho e, mais tarde, ela se tornaria protagonista de um famoso conto de fadas que teve várias versões, umas contadas oralmente, outras escritas (a partir daquelas versões orais) — por escritores tão badalados como os Irmãos Grimm e Charles Perrault e outros nem tão famosos assim.

Mas vamos falar de Chapeuzinho Vermelho. Aquela mesma. Vestido curto, olhos claros, rosto inocente e lindo, um capuz e uma capa vermelhos. Ela carregava uma cesta cheia que ia levar para a casa da Vovó.

O Lobo a viu no instante em que ela entrou no bosque. Ele a desejou mais do que tudo e, com seu desejo, ele condenou-se.

Durante um tempo, o Lobo apenas acompanhou-a, sorrateiramente por entre a densa vegetação, os olhos amarelos faiscando, o pelo eriçado, o desejo aumentando.

Então, ele a abordou; não bruscamente como seria de se esperar, mas suavemente.

— Olá, linda garotinha — disse o Lobo.

— Olá — respondeu ela.

— Não sente medo, andando sozinha pelo bosque, garotinha?

— Por que sentiria? E meu nome não é garotinha, é Chapeuzinho Vermelho.

— Um nome apropriado.

— Isso não importa. Nomes nem sempre são apropriados, são apenas nomes. Agora tenho que ir.

— Por que a pressa?

— Vou para a casa da Vovó. Tenho que levar essa cesta para ela.

— Mas sua companhia me é agradável. Gostaria de conversar mais com a senhorita.

Chapeuzinho Vermelho olhou-o demoradamente, de um modo que deixou o Lobo inquieto. Chapeuzinho passou a língua pelos lábios e sorriu.

— Muito bem. Mas eu realmente não posso demorar muito. Vovó pode ficar preocupada.

— Sei que ela vai entender, quando você disser com quem estava.

—Sim.

Ela despiu-se do capuz e soltou os cabelos, macios, longos, claros como seus olhos. Olhos que eram verdes e azuis dependendo da luz.

A claridade de fim de tarde, filtrada por entre os galhos, era dourada, e o cheiro da relva era fresco e macio.

O Lobo desviou os olhos, o coração acelerado. Foi Chapeuzinho quem primeiro falou:

— Nada a dizer?

— Como? — O Lobo parecia confuso, piscou e, recuperando-se, sorriu. — Sim, naturalmente. Não quer sentar-se?

Ela sentou-se e colocou a cesta de lado. O Lobo deitou-se ao seu lado e sorriu.

— Você é uma garotinha estranha.

— Não sou tão nova quanto aparento.

— Entendo.

— Eu sei.

— Bem, qualquer pessoa teria medo em andar sozinha por esse bosque.

— Eu não. Sabe por quê?

— Não.

— Por que eu sei o que é a coisa mais perigosa do bosque, e também sei que ele não me feriria. Não aqui, não agora. Estou errada?

Um brilho de raiva passou pelos olhos do Lobo, mas tão rápido que provavelmente Chapeuzinho nem percebeu. Ou isso ou simplesmente ignorou-o.

— Não esteja tão certa.

— Mas eu estou.

O Lobo ergueu-se e sumiu por entre as folhagens. Era como se nunca estivesse estado ali. Mas ele ainda a observava, de algum lugar no bosque.

Chapeuzinho ergueu-se, arrumou o capuz, limpou a grama do vestido e pegou sua cesta; ela retomou sem caminho e, em nenhum momento, olhou para traz. O Lobo não percebeu que a mão que não segurava a cesta tremia levemente. O Lobo, então, teve uma idéia, e acelerou o passo. Chegaria primeiro à casa da Vovó.

A Vovó abriu a porta e morreu.

O Lobo não tinha tempo para sutilezas. Ele estava com pressa. Ele apoiou as patas sobre o peito da Vovó e começou a arrancar a pele e a carne da senhora. Uma enorme mancha vermelha como vinho antigo espalhou-se pelo assoalho e tornou-se preto no canto da sala. Ele arrancou o coração dela e colocou-o num prato sobre a mesa, recolheu um copo de sangue e colocou-o ao lado do prato.

Então limpou toda a sujeira, enfiou-se sob os lençóis e sobre a cama da Vovó.

E esperou.

Não teve que esperar muito. Logo ouviu Chapeuzinho Vermelho chamando.

— Entre — disse o Lobo, imitando a voz de uma velha senhora. — Entre, minha querida.

Chapeuzinho Vermelho abriu a porta, alegre, sorrindo, mas logo fez uma careta.

— Que cheiro estranho — disse ela.

— Não é nada. Não está com fome?

— Sim. Mas esse cheiro…

Chapeuzinho Vermelho largou a cesta no chão e disse:

— Para a senhora.

— Dispa-se.

— Sim, Vovó.

Ela obedeceu; tirou o capuz e o vestido, as sapatilhas e o pingente; novamente ela soltou os cabelos e agora seus olhos tinham uma tonalidade clara e suave.

— Queime suas roupas. — mandou o Lobo.

— Sim, Vovó. — Chapeuzinho jogou as roupas no fogo e ficou observando-as. O fogo dançava uma dança secreta.

— Agora, alimente-se. Você vai se sentir melhor.

— Sim, Vovó.

Ela sentou-se à mesa, comeu o coração de sua avó e bebeu o sangue.

— Agora, venha cá.

Ela caminhou até a cama, enfiou-se sob os lençóis e sentiu o pelo eriçado do Lobo. Ela aninhou-se junto a ele.

— Você não é minha avó — disse ela, calmamente.

— Não, não sou — respondeu o Lobo, desanimado. Ela era suave e macia como ele imaginara.

— Eu soube quando bebi o sangue. Pensei que fosse vinho, mas era sangue.

— Era.

— Tudo bem. Estava bom.

Ela passou a mão sobre o pelo do Lobo e fechou os olhos.

— Você me quer agora?

— Sim.

— Vai doer?

— Não muito.

— Eu confio em você — disse Chapeuzinho Vermelho e sorriu para o Lobo. — O que vem depois?

— Depois?

Ele não soube responder. Colocou carinhosamente a pata sobre ela, aproximou a boca da garganta dela e sentiu o cheiro dela. Ele lembrou-se de alguns tipos de flores que eram raras e desabrochavam apenas uma vez por ano; essas flores cheiravam assim. Como algo intocado e puro.

Na lareira, o fogo queimava as cinzas das roupas dela. Chapeuzinho Vermelho fechou os olhos. Na mesma hora a porta do guarda-roupas abriu-se e o corpo da Vovó, as entranhas penduradas e o rosto desfigurado numa expressão de surpresa e horror, parte da caveira aparecendo, apareceu como que para observar a cena com olhos esbugalhados.

— Que eu morrer, quero dizer. O que vem depois? — perguntou Chapeuzinho Vermelho.

— Não sei — teve que admitir o Lobo.

O Lobo beijou Chapeuzinho Vermelho primeiro, depois a matou rapidamente. Ficou com o focinho enfiado na ferida que lhe fizera na garganta, como se não quisesse mais sair de dentro dela.

Era alta madrugada e a lareira iluminava parcialmente o quarto. O Lobo estava sentado no chão, olhando pesarosamente para a cama. Chapeuzinho Vermelho, nua e morta, estava estendida sobre lençóis brancos manchados de sangue, os olhos fechados, calma como se estivesse dormindo. O Lobo não conseguira devorá-la. Mas por quê?, perguntava-se. Por quê? Ele não queria olhar para Chapeuzinho, mas não conseguia desviar os olhos.

— Por quê? — perguntava-se.

— Não é óbvio, animal estúpido? — disse a velha dentro do guarda-roupas. O Esforço de falar fizera escorrer sangue como baba de sua boca escancarada.

— Você deveria estar morta.

— Talvez. Mas minha neta não.

— Eu… sinto muito.

— Meio tarde para isso, não?

— Espere. Os mortos não falam.

— Não. Você está louco. É apenas isso.

— E o que importa?

— Você deve enterrá-la.

— Para que ela descanse em paz — insistiu a Vovó morta. — Você deve fazê-lo.

Com uma pá encontrada nos fundos e sob a lua cheia que era como um olho cheio de cicatrizes, ele cavou uma cova. Observado pelas criaturas do bosque, que se mantinham ocultas no escuro, pois ele era o Lobo, o ser mais perigoso do bosque, e todos o temiam, ele trouxe Chapeuzinho e colocou-a dentro da cova. Ele a cobriu de terra e voltou para dentro da cabana.

Sentou-se na cama, ergueu-se, pegou os lençóis e jogou-os no fogo da lareira; então fez uma tocha e começou a colocar fogo nos móveis e na madeira da casa.

Depois ficou observando o fogo erguer-se e consumir a casa rapidamente, como vermes na carne apodrecida.

Naquela noite, o Lobo subiu numa colina e uivou tristemente; mas dessa vez não era um lamento para a lua… Não, o lobo chorava por Chapeuzinho Vermelho.

Nessa noite, quando finalmente dormiu, o Lobo sonhou com seios cortados e flores brancas escurecendo rapidamente em um carmim que gotejava e gotejava. Ele andava por entre as flores e era como uma sombra maldita num lugar de luz e serenidade. Mas era uma paz falsa. Com seus sentidos aguçados ele podia perceber o mal, oculto nos cantos, entre as folhagens, na grama, nos espinhos que lhe arranhavam as patas. Ele exibiu os dentes, pontiagudos e a saliva acida. Começou a correr na direção do bosque e por um segundo viu uma mão acenando para ele, uma figura encapuzada (um capuz vermelho) ao longe. Então a figura desapareceu e ele duvidou que realmente a tivesse visto.

Ao amanhecer, ele voltou à casa da Vovó e lá havia apenas madeira queimada e cinzas, o esqueleto chamuscado de uma casa e nada mais. O Lobo deu a volta na casa e ficou diante da cova onde enterrara Chapeuzinho Vermelho. Os olhos dele estreitaram-se e ele recuou instintivamente. A cova fora violada, a terra revolvida. Ele farejou e escavou. Chapeuzinho Vermelho não estava lá.

Ele procurou pelo bosque e todos os habitantes da floresta, animais ou não, todos se esconderam. Então uma velha coruja aproximou-se e pousou num galho alto o suficiente para fugir se ele a atacasse e lhe contou o que acontecera.

— Foi tarde da noite — contou a Coruja. — Eu ouvi sons que não eram o da madeira crepitando no fogo ou mesmo carne velha cozinhando. Não. O fogo já se extinguira. Restara apenas uma fumaça de cheiro azedo subindo no ar. Era outro som. Como um eco de desespero. Era um cavar. Um cavar horrendo, cheio de angústia e terror. Não demorou e percebi de onde vinha. Vinha da cova de Chapeuzinho Vermelho. Seu tolo. Ela estava viva e tentava sair!

— Não. Impossível. Acha mesmo, Coruja, que não sei distinguir um corpo vivo de um morto?

— Sei que você bem o sabe, sim. Mas morta, eu lhe digo, ela não estava.

O Lobo estremeceu.

— Mas como é possível? — perguntou ele.

— E o que não é?

— Logo eu vi as pontas dos dedos de Chapeuzinho e o rosto dela e ela estava gritando e gritando e chorando. Ela arrastou-se para fora da cova, cuspindo terra, trêmula. Encolheu-se e ficou assim durante um tempo longo demais, não sei quanto. Então, ela ergueu-se e saiu da clareira e entrou no bosque. Eu a segui. Ela cambaleava entre as raízes até alcançar a trilha. Parecia desorientada. Uma figura estranha, coberta de terra e sangue seco. Ela caminhou até a estrada, onde caiu e ficou lá estendida, os olhos fitando vazios o céu, enquanto ao longe um lobo uivava… até que um carro passou e a levou.

O Lobo nada disse. A imagem de Chapeuzinho lutando para sair da cova o perseguia.

Mais tarde, quando a bala dos homens entrasse em sua carne e ele caísse no rio gelado, sendo arrastado pela forte correnteza, enquanto as balas ainda lhe eram disparadas, ele se lembraria do dia em que, depois de muitos anos, ele decidira novamente vestir a roupa e a aparência dos homens para ir à Vila dos Cantos à procura da garota que ele assassinara.

O Lobo chegou à vila ao amanhecer de um dia cheio de nuvens carregadas e chuva fina e fria. Encolhido dentro de um sobretudo surrado e fora de moda, ele atravessou a pequena ponte que era a entrada para a vila. Peixes nadavam e pulavam na água clara. Do outro lado da ponte, havia uma praça e na praça, uma igreja, bancos, árvores e um pub. O nome do pub era “A Toca” e o Lobo achou aquilo um bom presságio. Entrou no pub e o mesmo estava quase vazio. O Lobo foi até o balcão e um homem muito magro e muito alto perguntou-lhe o que queria.

— Algo para esquentar — disse o Lobo.

O homem assentiu e serviu-lhe uma dose de algo que o Lobo achou ácido demais, mas que realmente espantou um pouco do frio. Ele olhou ao redor. Dois homens jogavam xadrez de modo demasiadamente lento, como duas estátuas sem a menor vontade de mover-se. Uma mulher de roupas e gestos vulgares olhava triste um quadro na parede; no quadro, uma casa feita de doces. A mulher chorava silenciosamente.

O homem alto disse alguma coisa que ele não entendeu.

— Como?

— Perguntei se está só de passagem, veio visitar alguém ou o quê? — perguntou o homem, educadamente.

O Lobo pensou em dizer que estava só de passagem, mas pensou melhor:

— Vim visitar alguém, mas estou com um problema. Não sei onde essa pessoa mora. Talvez possa me ajudar.

— Como assim? Vem visitar uma pessoa e não sabe onde ela mora?

— Faz muitos anos que estive aqui — disse o Lobo, refletindo que isso era verdade.

— Muito bem — disse o homem alto, meio desconfiado. — Quem?

— Chapeuzinho Vermelho.

A expressão de desconfiança do homem mudou para pesar.

— Então você não sabe?

— O quê?

— Algo horrível aconteceu a ela.

— O que aconteceu?

— Ela foi atacada por ladrões quando foi visitar a avó dela. Os malditos a largaram no meio da estrada, em estado deplorável. E queimaram a casa da avó da menina. Pode acreditar? Na minha opinião, deviam ser alguns desses loucos que iam visitar a velha às vezes. Dizem que ela era bruxa, então se morreu queimada, foi algo bem merecido. Porém, Chapeuzinho não tinha que ver isso. Mas você é o quê? Algum parente?

— Isso. Um parente.

O homem alto assentiu, ensinou o caminho para o Lobo e disse que não precisava pagar a dose, é por conta da casa. O Lobo agradeceu e virou-se. Quase bateu de cara com a mulher que antes olhara o quadro. Os olhos dela ainda estavam úmidos.

— Eu o conheço? — perguntou ela. Ela o olhava atentamente, tentando lembrar de onde conhecia aquele homem de roupa surrada e modos estranhos. Sim, ele não era realmente estranho? O jeito como ele olhava tudo, como caminhava. Como se não se lembrasse mais o modo certo de fazê-lo.

— Não creio — respondeu ele, e saiu pela porta.

A casa de Chapeuzinho Vermelho ficava no fim de uma rua que subia num declive quase totalmente vertical, mas o Lobo, acostumado a correr no bosque por longas distâncias, não teve dificuldade em alcançá-la. Ele não bateu na porta imediatamente. Ouviu um rosnar e quando olhou, viu um enorme cachorro preto, o pelo curto e liso, latindo para ele. O Lobo exibiu os dentes e deixou o cachorro vislumbrar seus olhos amarelos. Foi o bastante para que o cachorro saísse correndo.

Quando tornou a olhar para a porta, levou um susto. Uma mulher estava parada na porta, olhando-o curiosa. A mãe de Chapeuzinho, adivinhou o Lobo.

— Posso ajudá-lo, senhor? — perguntou ela.

— Sim, quer dizer, estou procurando Chapeuzinho Vermelho.

A mulher olhou-o.

— E quem é o senhor? — perguntou ela.

— Mamãe?

Ele reconheceu a voz de Chapeuzinho e estremeceu. A chuva batia em seu chapéu e ele encolheu-se mais ainda.

— Entre — disse a mulher, e subiu os degraus que levavam ao andar superior.

O Lobo entrou e era uma sala espaçosa e confortável. Um degrau a separava da sala de jantar, onde havia uma enorme mesa de carvalho. Sobre a mesa, uma espingarda. O Lobo andou até a arma e pegou-a.

Estava examinando-a quando ouviu uma voz ríspida às suas costas:

— Solte-a já.

Ele virou-se. Um homem estava parado na porta, segurando uma caixa de balas e o olhava carrancudo. O Lobo soltou a arma.

— Desculpe. Eu não pretendia… Estava apenas admirando-a.

O homem passou por ele, colocou a caixa de balas sobre a mesa, ao lado da espingarda, e perguntou:

— Quem é o senhor?

— Amigo de Chapeuzinho.

— Estranho. Eu nunca o vi. Qual o seu nome?

— Wolfson.

— Nome engraçado.

— Nomes são apenas nomes.

— É verdade.

— Sua filha me disse isso.

— Como sabe que ela é minha filha?

— Ela o descreveu, certa vez.

— De onde a conhece?

— Ela disse para você subir — disse a mãe de Chapeuzinho, parada na escada.

Ele subiu. O quarto dela era o segundo no corredor. Chapeuzinho Vermelho estava no peitoril da janela, os joelhos apoiando o queixo, e olhava para a rua. A mãe de Chapeuzinho fechou a porta e o Lobo ouviu-a afastar-se.

— Não achei que o veria de novo — disse ela.

— Pensei que estivesse morta.

Ela virou-se para ele. Ainda estava pálida. Não havia nenhuma cicatriz em seu pescoço, apenas em seus olhos. Ela olhou-o com tristeza.

— Você cuidou para que isso fosse verdade, não foi?

Ambos falavam baixo, inconscientemente.

— Sim — respondeu ele, encabulado.

— Mas eu não morro tão fácil. Como pode ver, eu cicatrizo rapidamente também. Mas acordar dentro de uma sepultura, bem, não é fácil para uma garota de dezesseis anos. Não é fácil para ninguém, de qualquer modo.

— Sinto muito.

— Eu sei que sente, lobinho.

Ele estremeceu.

— Infelizmente eu não morri. Alguma coisa que minha avó fez comigo, imagino. Desde que eu era pequena, meus machucados, por mais que parecessem sérios, saravam depressa. Ela era uma bruxa, você deve saber. A minha avó.

— Ouvi algo.

— Você veio me matar?

Ele demorou a responder.

— Não sei — disse, finalmente.

— Não sabe ou não pode?

Ela desceu da janela, sentou-se na cama e olhou para o espelho no outro lado do quarto.

— Você… — começou a dizer o Lobo.

— Eu queria morrer, sabe. Por isso eu fiz tudo que me mandou fazer na casa da minha avó.

— Mas por quê?

— Por que eu queria morrer? Esqueça isso.

— Foi sua avó que me disse para enterrá-la. Levei um susto danado. Ela estava morta e falando comigo.

— Você deve ter imaginado.

— Talvez — disse ele, mas duvidava.

Os dois ficaram em silêncio. O Lobo andou até a janela. Depois virou-se e examinou o quarto atentamente. Havia um calendário perto do espelho; uma imagem de um lago profundo e a data: 18 de novembro de 1917.

— Não imaginei que tivesse passado tantos anos — Ele se referia ao tempo em que abandonara a humanidade e se tornara lobo. Ele a olhou. — Como me reconheceu?

— Lobo em pele de homem. Eu o reconheceria de qualquer modo. Em qualquer lugar.

— Eu vou embora.

— Por que veio aqui?

— Não sei. Talvez você seja tão bruxa quanto sua avó e tenha me enfeitiçado — disse ele, meio brincando, meio sério.

Ela sorriu, andou até ele e beijou-o, um beijo quente, demorado.

— Esse é o único feitiço que eu conheço.

— Eu ainda tenho seu cheiro em mim — ela disse e afastou-se. — Desde aquela noite.

— Eu vou embora.

— Você volta para me ver?

— … Não. Esse lugar é perigoso demais para os da minha espécie.

— Então eu irei vê-lo no bosque.

— Eles permitirão que você volte lá, depois do que aconteceu?

— Eles não precisam saber.

A mãe de Chapeuzinho Vermelho entrou sem bater e encarou-os, desconfiada.

— Seu pai está inquieto com vocês dois aqui em cima, sozinhos — disse ela.

— Já estou de saída — disse o Lobo.

Na semana seguinte, Chapeuzinho Vermelho foi encontrar-se com o Lobo no bosque. Ela havia dito à sua mãe que iria dar uma volta pela cidade e, sim, mãe, vou me manter longe do bosque.

Quando alcançou a trilha que ia dar na casa de sua avó, Chapeuzinho soube que estava sendo observada. O Lobo saltou diante dela, o pelo escuro, os olhos amarelos, e observou-a atentamente.

— Você não me assusta – disse ela.

— Eu sei.

Ele farejou o ar.

— O que foi?

— Você foi seguida.

— Tem certeza? Eu tomei bastante cuidado e…

A bala acertou-o no ombro e ele ganiu. Chapeuzinho gritou. O Lobo caiu, pesadamente. Então, ergueu-se depressa.

Cavalos aproximavam-se rapidamente.

— Fuja — gritou Chapeuzinho.

Ele correu, um tanto lento por causa do ferimento, mas ainda rápido. As balas passavam por ele, arrancando lascas de árvores e terra. Ele olhou para traz e viu os cavalos e os homens armados sobre eles. Ele correu como nunca correra antes e, apesar daquele bosque ser sua morada a centenas de anos e o Lobo conhece-lo como a si mesmo, eles o encurralaram no alto de um precipício. Ele olhou para baixo e viu um rio sinuoso e que seguia a perder de vista. Olhou para traz e viu os homens armados chegando depressa. E saltou.

Os homens desceram dos cavalos e ainda estavam atirando nele quando ele atingiu a água e foi arrastado pela força da água.


Chapeuzinho Vermelho, de joelhos no meio da trilha, chorava.

Noite. Lua cheia. Não há uivos essa noite no bosque.

Esse texto não é meu. Foi retirado do Não Diga Nada, e a
citação no início do mesmo me inspirou a nomear esse blog.

História de mulher

Era uma vez uma garotinha. Nascida no início dos anos 80, foi criada por uma família normal, com pai e mãe normais. Não teve irmãos ou irmãs. Mas pode-se presumir que amigos na infância não faltaram.

Era uma garota como qualquer outra nascida nessa época: magra, esbelta, cabelos compridos e com uma franjinha. Na verdade, os cabelos compridos e o fato de sempre usar camisa (meninos costumam andar na rua só de short) eram os únicos indicativos de que ela era uma garota. Naqueles tempos, as crianças costumam deixar de ser crianças bem mais tarde, logo, até por volta dos quatorze anos a menina era o que hoje se costuma chamar de tábua: não possuía bunda nem seios salientes.

Era dona de uma beleza diferente, raramente compreendida. Possuía sardas em excesso, espinhas não mais que o normal e um pequeno problema de ortodontia. Não que tivesse dentes feios, ao contrário. Eles simplesmente não eram perfeitamente alinhados, o que, juntado a todos os outros fatores, fazia dela motivo de gozação e escárnio por seus colegas de sala.

Foi provavelmente ao chegar nos quinze que ela começou a desenvolver seu corpo. Seios começaram a ficar protuberantes, uma bundinha começou a preencher os espaços antes vagos de suas calças. Infelizmente, hormônios são coisas bizarras. Não se sabe o que deu errada (progesterona de menos, testosterona acima do normal pros padrões femininos?), mas junto dessas qualidades surgiu um pequeno defeito: um bigode. Não aquela pelagem fina, que se costuma encontrar acima dos lábios de algumas mulheres e, que diga-se de passagem, às vezes é até charmoso, mas uma camada espessa de pêlos. Era um bigode que faria inveja a alguns meninos de sua idade.

Imagina-se o quão difícil foi este período: garotas troçavam e garotos desprezavam. Os únicos que se aproximavam dela a viam como nada mais do que um objeto sexual fácil, embora assim não o fosse. Afinal, eis a lógica usada: “se ela é feia, ninguém quer. Se ninguém quer, ela aceita qualquer um. Se aceita qualquer um, faz qualquer coisa pra mantê-lo. Logo, sexo deve ser fácil, fácil”. Infere-se facilmente, infelizmente, que esse tipo de atitude devia deixar a menina em questão deveras triste, depressiva e reprimida.

Um dia, ela conquistou uma amiga. Na verdade, encontrou ou esbarrou seria mais correto, já que nada foi feito para conquistar. Não se sabe muito bem como isso se deu: se encontraram-se por acaso numa festa, na casa de um amigo, numa caminhada pelo parque, numa sala de aula. Afinal, isso faz muito tempo e ninguém costuma lembrar como conheceu um amigo. Sabe-se que essa amiga era o oposto dela: um pouco mais jovem, mas bem mais bonita (cabelos castanhos ondulados, olhos castanho-claros, seios fartos, cintura definida e um sorriso capaz de fazer qualquer macho babar) e sexualmente bem decidida. Apesar das diferenças, realmente se tornaram amigas. Nessa época, influenciada pela nova companheira, ela resolveu dar um trato no visual.

Em poucos meses, nossa garotinha se tornou uma mulher. Passou a depilar seu bigode (que nunca mais foi visto), a usar blusas decotadas e saias e calças que ressaltassem suas belas pernas. Tornou-se atraente. Passou a ser assediada pelos colegas de sala (agora, na faculdade, não no colégio). Teve experiências sexuais e amorosas, às vezes uma ou outra, às vezes ambas de uma vez.

Um dia ela se apaixonou de verdade e foi correspondida, vejam só. Dizem que o cara era desses exemplares hoje raros de se ver: gostava de andar a pé com ela, abraçado. Quando saiam, ele sempre lhe puxava a cadeira. Costuma sentar sempre próximo e, vez por outra, do nada, dar um beijo e abraço demorado. Daqueles que hoje em dia só se vê em público quando o casal é jovem e o relacionamento é recente.

O relacionamento foi intenso. O rapaz, jovem sonhador, aspirante a escritor que ainda morava com os pais, embora possuísse bom emprego, foi logo aceito pela família da moça. A moça foi aprovada pela mãe do rapaz. Em poucos meses, eles praticamente já moravam juntos: era comum ela dormir na casa dele, usar as roupas deles, abraçar de manhã a mãe dele (ainda usando só um camisão dele) como se fosse a sua.

Um dia, sem preparação nenhuma, sem aviso nenhum, ele chegou pra ela e exibiu a mão direita: “olha só, amor: O que você acha dessa coisa que achei nas gavetas de minha mãe?” A “coisa “ tratava-se de um fino anel de ouro no centro de sua mão. “Bonita, muito bonita. Linda, na verdade. Por que foi que sua mãe trocou essa aliança pela que ela hoje usa?” “sei lá – ele respondeu – Mas se você achou tão bonita assim, por que não usa? Acho que cabe direitinho no teu dedo. E, olha só!, tem outra aqui que cabe direitinho no meu”. E assim, com um diálogo desses, ele a pediu em casamento. Alguns segundos demoraram pra ficha cair, pra menina se tocar do que estava acontecendo. Quando ela se deu conta, começou a chorar (coisa típica de mulher, nunca vou entender) e o abraçou com força. O sexo que fizeram naquela noite até hoje é lembrado por ela com um carinho enorme.

Mas a vida nunca sai como esperamos. Como diria Tom Hanks em Forrest Gump: “A vida é como uma caixa de bombons: você nunca sabe o que vai encontrar dentro”. Tudo estava perfeito, tudo estava lindo demais pra ser verdade. Parecia até um sonho. Um sonho do qual nossa garotinha (agora uma mulher, vale lembrar) foi bruscamente acordada: numa madrugada idiota qualquer, um idiota qualquer causou um acidente estúpido demais com seu noivo. O socorro chegou tarde demais e ele faleceu.

Nossa mulher voltou a ser uma garotinha: triste, pesarosa, chorona. Sem sair do quarto por meses. Perdeu peso, quase voltou a ser uma tábua de tão magra que ficou. Parecia que ia morrer de tristeza. Mas nessas horas, ter amigos é bom: aquela velha amiga, aquela que a ajudara a crescer, a se transformar em mulher, a ajudou a sair da fossa. A arrastou novamente pro mundo dos vivos.

Se ela um dia conseguiu superar a morte de seu amado? Impossível responder. Dois anos se passaram, ela já amou outros. Mas mesmo assim, em algumas noites frias, sozinha em seu apartamento, ela chora até de tarde lembrando o quão bom era dormir de conchinha com ele…

— João Octávio A. T. Boaventura
texto escrito em homenagem às meninas do Morangos Amargos.