O Mago

Essa é a história de Daniel Soares de Brito. Brasileiro, natural de Juazeiro do Norte - CE. Filho único de Mário Cavalcante de Brito e dona Inês Soares de Brito (falecidos). Trinta e oito anos, sem filhos, sem parentes próximos, sem amigos íntimos, sem esposa, namorada ou pretendentes conhecidas. Advogado, professor de direito civil na Universidade Regional do Cariri. Considerado “bem de vida” pelos habitantes locais. Tímido. Enfim, apenas um sujeito normal, com uma vida que até seria mundana ao extremo se não fosse um fato notório: Daniel é um mago.

Sim, Daniel Soares de Brito é um dos poucos verdadeiros praticantes da magia. Não, não esse tipo de “magia” que se vê nos terreiros de macumba com pais-de-santo, não o tipo de magia que se tem nas quiromantes, oneiromantes ou qualquer coisa do gênero. Ele é do tipo de mago capaz de realmente alterar a realidade. Do que poderia fazer chover, se quisesse (na verdade, quando ele está de mal-humor, é comum que o tempo ao seu redor feche). Do tipo que não apenas fala com espíritos, mas também os toca. Às vezes, ele acompanha tais espíritos em seus caminhos sombrios pelo mundo intermediário, aquela linha tênue que separa o mundo dos vivos do além-vida. Às vezes, embora raramente, ele desce ao mundo inferior, não para tentar rever sua mãe, pai ou algum amigo perdido, mas para tentar se acostumar com o tipo de local onde passará a eternidade.

Apesar de tudo, ele não é o tipo de pessoa mórbida que se poderia esperar. Na verdade, quando consegue uma folga de suas obrigações, sejam elas mundanas ou místicas, Daniel costuma evitar locais tristes como igrejas, cemitérios ou hospitais. Ele costuma ser visto sentado em um restaurante caro local, vestido casualmente, cadeira ao lado da mesa, sempre sozinho, bebericando um J. Walker Blue Label e escrevendo, pois tem como hobby, além da magia, o hábito de escrever anonimamente para um blog na internet.

Mas nesta noite tudo mudará. Há um ano, Daniel descobriu a existência de um pergaminho perdido, conhecido como a carta da letra negra, que descreve um ritual complicado, a ser realizado em uma noite tempestuosa, que colocaria quem o realizasse em contato com uma entidade antiga e pouco conhecida chamada de Guardião. Reza a lenda que aqueles que o derrotaram conquistaram poder suficiente para conseguir tudo o que desejam, em um único instante. Três meses atrás, após enfrentar seres infernais, ele conseguiu o pergaminho. E desde então se prepara para o confronto.

Hoje Daniel está pronto. Conseguiu todo o necessário para invocar o portal e realizar a travessia: uma encruzilhada com uma árvore no meio. Uma forca feita de intestinos de gatos negros para pôr em um galho da árvore. Uma noite tempestuosa, com o vento vindo do sul. A primeira menarca de uma virgem, para com ela desenhar runas em seu corpo. Uma faca feita de vidro negro. À meia-noite em ponto, ele começou o ritual: teceu a forca, pendurou no galho. Desenhou as runas no seu peito nu com o sangue. E, usando a faca de vidro negro, cortou o fino véu da realidade e adentrou o reino da criatura.

Daniel fora preparado para encontrar quase tudo: esperava encontrar demônios, em um ambiente completamente inóspito, que emanasse um calor insuportável para a vida, ou que contivesse um frio primevo, anterior ao surgimento do universo. Ele estava preparado para tudo isso e mais, sabia exatamente que tipo de feitiço usar para se defender/atacar nessas situações. Mas com certeza, ele jamais esperaria o que encontrou: uma criança de doze anos, gordinha, de óculos, na porta de um casarão amarelo com azul, a sorrir e lhe acenar.

Ao aproximar-se, a criança lhe disse: “Sou o guardião deste local. Seja bem-vindo. Se vieste aqui em busca do pulsar da vida, tudo o que precisa fazer é atravessar os cômodos desta casa comigo”. “Então, o que eu busco se chama pulsar da vida - pensou Daniel - um nome estranho, mas ao menos indica que deve ser algo físico, uma jóia, ou amuleto, talvez”. Então, segurando na mão da criança, ambos entraram na casa.

A sala de estar da casa era uma UTI. Nela jazia o pai de Daniel, com câncer, em seus momentos finais. Ele estava lá, com dez anos, ao lado de sua mãe, vendo seu pai morrer. Ao rever tal cena, ao escutar novamente o grito de sua mãe quando o monitor cardíaco do pai parou de dar sinal, quando as ondas se transformaram em uma única linha reta, ele não pôde evitar que uma lágrima lhe escorresse pelo rosto. “Por quê? Diga-me, Guardião, por que tenho que rever isto?” A única resposta do garoto foi apontar para a porta que o levaria para a próxima sala.

O cômodo seguinte era o antigo banheiro de sua casa. Ele se viu, agora com onze anos, ajoelhado, quase em choque, o olhar fixo no alto, no corpo da mãe morto. Ela, sem agüentar a falta do marido, enforcou-se no banheiro. O Daniel de onze anos ouviu o estralo do pescoço dela quando quebrou, mas não pôde fazer nada além de cair e chorar. O Daniel atual também caiu de joelhos, em silêncio.

- Vamos, meu jovem - disse o Guardião - não deixemos que pequenas tragédias familiares te façam desistir. Ainda temos alguns quartos e salas para visitar.

Levantando-se, enxugando as lágrimas no braço, tentado parecer forte, ele passou ao lado do seu “eu” menino, do corpo de sua mãe e entrou no cômodo seguinte.

- Agora, vamos reviver seu treinamento, e sua maior perda - falou o guardião, ao entrarem em um corredor descoberto, onde podiam ver as estrelas.

E de repente ele se viu na Bolívia, quatorze anos atrás, onde fez o curso de mestrado em direito de família e conheceu Pedro Lúcius Angelus, quarenta anos, também aluno do mesmo curso. Tornaram-se amigos e Lúcius, percebendo o potencial de Daniel, iniciou-o no Concílio dos Sete, seita mística a que pertencia. Devido a este fato, ele passou três anos em La Paz, aprendendo como o universo funciona e como fazê-lo funcionar de modo diverso. Ao término do primeiro ano, já era capaz de curar qualquer ferimento ou doença, não importa quão grave fosse, simplesmente tocando o enfermo, além de ver qualquer local que quisesse. Foi nessa época que conheceu Salma, filha de seu mentor e se apaixonou. Ao fim do segundo ano, já era capaz de transformar-se em qualquer animal que conhecesse. Podia ver o passado como se lá estivesse. Aprendeu como falar com os mortos. E, com a bênção de Lúcius, casou com Salma.

Em sua terra natal, na região do Cariri, ninguém jamais soube, ninguém sequer poderia imaginar que Daniel casara. Mas ele o fez. E foi extremamente feliz. Ambos se amavam e faziam planos de ter filhos. Cada vez mais ele desenvolvia suas habilidades místicas. Ao término do terceiro ano, ele assim planejava, iria retornar a Juazeiro com sua esposa e lá se estabelecer, com uma vida simples e pacata.

Mas nem tudo costuma sair como planejamos. Salma foi assassinada ao sair com uma amiga, Valéria, para a danceteria local. Um jovem, de aparentes vinte e cinco anos, branco, cabelos curtos, tatuagem no pescoço, bem vestido, não aceitando o fato de que podia ser rejeitado, quebrou uma garrafa de cerveja na parede e, utilizando-se de metade dela, matou-a. O golpe a atingiu no rim esquerdo. Na confusão, seu assassino conseguiu fugir, jamais sendo localizado pelas autoridades locais.

A isso tudo Daniel reviu, ao lado do Guardião, sempre implorando para que ele parasse. E o Guardião, com seu jeito de menino, nada fazia.

Salma morreu às 3:18 da manhã de 23 de março de 1997. Os médicos nada puderam fazer por ela, visto que perdera muito sangue no caminho. Daniel chegou ao hospital às 4:03 e, embora pudesse curar qualquer ferimento, não sabia como trazer os mortos à vida.

- Novamente, mago, você nada pôde fazer. Imagino como deve ser frustrante essa sua vidinha de merda. Teu pai morreu, e o que fizeste? E sua mãe? Ah, pelo menos você se vingou do assassino de sua mulher, não foi? Mas isso realmente valeu a pena? - Perguntava o Guardião, em tom irônico. Daniel parecia não ouvir, estava concentrado no quadro que se desenrolava a sua frente.

No passado, ele, na manhã seguinte ao assassinato, encontrou um Lúcius extremamente calmo, regando o jardim, como se nada tivesse acontecido. Indagado do porquê de seu comportamento, ele assim respondeu:

- Meu filho, eu já sabia que esse dia chegaria. Veja bem, eu te ensinei a ver o passado, mas também sei como espreitar o futuro. Antes que ela nascesse, eu já sabia como tudo terminaria, sabia que ela se casaria com você, que você seria um mago extremamente promissor, mas que não poderia salvá-la. Sei do mal que isto tudo vai causar a você, ao seu futuro. Sei que, em breve, irá me matar. Sei que destruirá o Concílio dos Sete e, então, tombará, sozinho. Sei que não haverá ninguém para chorar tua morte, assim como não haverá ninguém para chorar a minha. Pois pesada é a cabeça que carrega uma coroa e nós, magos, carregamos o fardo de sermos os reis, melhor, deuses, desta realidade. É nosso destino terminarmos sempre sós. Espero que entenda. E, sim, a resposta para a pergunta que você está pensando é sim, eu sei como ressuscitar, mas, apesar de te amar, meu futuro algoz, e amar ainda mais a minha filha, não ouso interferir com o destino que vi.

Nisso ele partiu. Nunca retornou à Bolívia. Dois meses após a morte de sua esposa, convenceu certos espectros a levarem, ainda vivo, o assassino ao inferno. Lá o mesmo vem sendo torturado até os dias de hoje. Um ano depois, mandou matar Lúcius de um modo bastante mundano, mas bem eficaz: pagou um pistoleiro para, num momento de distração, acertar-lhe a cabeça com um tiro de .45.

Nos anos que se seguiram, Daniel alcançou mais e mais poder. Tornou-se, sozinho, mais poderoso que o Concílio dos Sete, que contava com seis membros, e o destruiu. Isso, obviamente, lhe trouxe mais inimigos. O que o forçou a se tornar mais poderoso para se proteger. A cada inimigo destruído, outro tomava seu lugar. Só Deus pode saber como ele conseguia advogar, dar aula e ainda escrever besteiras pra um blog bebendo uísque quando tantas pessoas desejavam sua morte.

- Então, Daniel, é por isso que desejas tanto o poder que ofereço? Apenas para te proteger, para evitar que te matem pelos erros que cometeu? E para que desejas tanto viver? Apenas para um dia morrer, sozinho, em uma cama de hospital? Até teu pai teve destino melhor, até ele, que não era nada comparado a ti em poder e inteligência, teve uma esposa e filho, além de vários amigos, para chorarem sua morte. Tua morte será apenas motivo para que teus colegas tirem folga, pois acho, acho, que o reitor de tua faculdade iria decretar ponto facultativo. Mas não te enganes, mesmo com a folga, nenhum colega ou aluno iria ao teu funeral. Estarás sozinho ao morrer, como sempre esteve em vida.

Nisso ele caiu de joelhos, aos prantos. O cenário mudou. Voltaram para a mundo real. Lá estava o poderoso Daniel, caído na chuva, nu, chorando, totalmente desconsolado, e o Guardião ao seu lado. Rindo alto e alegremente, o Guardião fez Daniel se levantar, subir no balde onde trouxera o sangue menstrual da virgem e colocou a forca de intestinos de gatos em seu pescoço.

- Esse é o destino dos tolos, Daniel. A ti foste dado poder suficiente para moldar a realidade, mas o desperdiçaste. A ti foste dado o poder de ser o que bem quisesses. Mas, assim como todos os humanos, desperdiçaste teu potencial. Uma pena.

- Não, Guardião, não desperdicei - falou Daniel, numa súbita recuperação - Finalmente entendi de que se trata o pulsar da vida - disse, enquanto a forca brilhava e desaparecia - Finalmente compreendi que nunca, nunca, precisei desses poderes. Finalmente percebi que o futuro pode ser evitado, e, ao contrário de Lúcius, eu não tenho medo de tentar. Pois o medo de ser feliz, espectro, é o que nos mata, por mais que continuemos vivos.

Então Daniel desceu do balde, vestiu suas roupas encharcadas pela chuva, passou a mão pela cabeça do Guardião e simplesmente o deixou lá, sozinho sem nada entender. O Guardião voltou para seu reino e Daniel retornou à sua casa, não mais capaz de alterar a realidade ou de tocar, ou mesmo falar, com os mortos. Daniel conquistou o prêmio, o pulsar da vida e, com isso, tornou-se um reles humano. Livrou-se do peso da coroa de rei desta realidade e finalmente encontrou a paz e o sono tranqüilo que apenas aos mais simples plebeus é permitido ter.

– João Octávio Anderson Trindade Boaventura

Publicado em: on Domingo, 17/Agosto/08 at 11:03 pm Comentários (1)
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Coisas simples (um rondel)

Pra ser feliz, pouco é necessário:
Basta uma sombra, uma rede e você ao lado.
Pois aquele a quem você ama é mais sortudo que um milionário
E quem quer e não te tem, sofre mais que cachorro abandonado.

Não existe nada mais bonito que uma criança no berçário,
Você, sorrindo ao lado, e eu olhando tudo embasbacado
Pra ser feliz, pouco é necessário:
Basta uma sombra, uma rede e você ao lado.

Ah… Mas se um dia você me deixar, levarei uma vida de celibatário…
Festas, amigos, bebidas, mulheres, nada disso será do meu agrado!
Como um animal acuado, percorrerei a vida tal qual um derrotado.
Pra você voltar pra mim, largaria até meu emprego de escriturário
(pois) Pra ser feliz, pouco é necessário.

– João Octávio

(procurando coragem pra escrever um conto)

Publicado em: on Domingo, 10/Agosto/08 at 2:02 am Comentários (2)
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Filmes pra se assistir

Todos os de Kevin Smith. Todos, sem exceção. Principalmente “Procura-se Amy”. Não, Procura-se Amy não é o melhor filme deste diretor, é simplesmente o melhor filme já feito e possui a melhor declaração que eu já vi. Comprem, se puderem. Se forem amigos meus, me dêem de presente (não, eu só tenho um piratão dele, nunca achei o original pra vender, mas compraria de bom grado). Aluguem, baixem na net, whatever. Assistam, é o que digo.

Mas hoje estou aqui pra falar sobre O Balconista 2. Uma típica comédia despretenciosa, sobre amigos que trabalharam a vida toda como balconistas. Não é o tipo de comédia que te faz rir (a não ser que você seja nerd o suficiente pra entender “admita tigrão, você tirou a sorte grande”), mas é divertida. Principalmente pelos temas “sérios” escondidos (embora não necessariamente “disfarçados”) no filme. Típico filme leve que te faz pensar na vida e ver que ela não precisa ser uma merda. E bem melhor que o besteirol meloso estilo Adam Sandler (nem sei se escrevi direito). Comprei na Americanas por R$19,90 (edição especial, dois discos), mas vale bem mais que isso. Assistam.

Aproveitem e assistam também Barrados no shopping.

E só

– João Octávio
fazia tempo que não me sentia tentado
a escrever sobre um filme que assisti…

Vida e Amores de João 8

Essa é a história de João 8
(escrito assim, sem traço, aspas ou qualquer outro sinal gráfico)
Uma história boa, divertida e com um toque trágico
Embora tudo não possamos te contar pra não te deixar tresnoito.

João 8 nasceu numa quinta,
uma quinta qualquer, indistinta.
Veio sem ter sido chamado,
pelo pais, não fora desejado.
Mesmo assim, deixou seu legado.

João 8 foi crescendo, sempre franzino.
Muita falta de exercício, imagino.
O que importa é que nunca foi bom dançarino.
Na formatura do ABC pisava no pé de sua dama.
Por não saber dançar, tanto demorou a levar mulher pra cama,
o que lhe rendeu um vício incurável por cerveja da brahma.

Dizem que ele se apaixonou cedo demais.
Um linda menina, que lhe tirou o sono e a paz.
Por ela, ele nutriu sentimentos ideais,
e por causa disso quase não foi feliz nunca mais.

Mais de dez anos ele levou pra esquecer
(o sentimento não queria arrefecer!)
Mesmo assim ele se forçou a viver
embora sem ela, nada quisesse ter.

Enfim, ele a esqueceu
(e que trabalho isso deu!),
mas só pra se apaixonar novamente.
Morena linda, muito decente,
roubou o coração de nosso amigo num repente.

Juras de eterno amor ele fez.
Poemas construiu com inigualável brilhantez,
doido pra de sua morena ver a nudez,
ela, porém, nesse ponto logo não o satisfez.
Queria provas de que ele não a abandonaria
Tão logo seu corpo deixasse de ter serventia.

Felizes eles eram.
Até um filho tiveram!
Mas o mundo se pôs no caminho,
o tempo que passavam juntos passou a ser daninho.
Então eles se separaram,
mas com a amizade não acabaram.

Outra noite, outra brahma.
E, olha só, eis que novamente ele ama!
Outra morena lhe chamou a atenção
e de novo ele entregou seu coração.

Com ela, pouco ele viveu,
porém muito se deu.
Feliz ele foi como nunca antes,
pois ambos se divertiam como bacantes.

Porém, o amor chegou ao fim.
Embora ela lhe fosse uma alma afim.

Com o coração partido,
ele se sentia perdido.
Jamais iria ter outro amor tão desmedido.

De dor ele gemia,
de frio tremia.
Queria voltar pra boemia,
mas seus pecados ele remia.

Outra noite, outra menina ele encontrou.
E, adivinhem só, a ela ele amou.
Alta, branca, bonita,
logo se tornou sua favorita.

Agora eu me calo.
Sei que a um verdadeiro poeta não me igualo.
Paro por não ter mais o que contar.
Pois sei que já estás cheio de histórias sobre sofrer e amar.

– João Octávio
adorando brincar com as rimas

Publicado em: on Sábado, 2/Agosto/08 at 11:23 am Comentários (0)
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Sobre o que aconteceu com Jake

Sabem, esta história não deveria ser contada. Ela é totalmente sem graça. Nenhum, nenhum leitor vai se interessar. Mas fazer o quê? As notas que um dia comporão o livro sagrado do cara estão praticamente impossíveis de se trabalhar (traduzir ideogramas feitos por ébrios é terrível), meu ópio acabou há quase duas semanas, minha última namorada me abandonou, o barzinho próximo já está fechado. Então, é por absoluta falta do que fazer que conto esta história.

Creio que se lembram de Jake. Sim, aquele mesmo, pobre paspalho apaixonado pela sem-graça da June. Aquele que passou meses sofrendo por querê-la, tentando marcar um encontro. Aquele que entrou em depressão quando não pôde ficar com ela. Sim, é deste Jake que estamos falando.

Por incrível que pareça, ele não se matou após aquele encontro. Também não se aliou à Legião Estrangeira da França ou qualquer outra milícia. Tampouco mudou de cidade. A única coisa que ele fez foi entrar em profunda depressão por dois dias, sem sequer sair do quarto. No terceiro dia, leiloou uma flauta transversal que possuía, o anel de ouro de seu pai (sem que o velho soubesse) e alguns vídeos pornôs caseiros que fizera. Tudo isso ele vendeu no mercado livre e conseguiu uma boa grana. O suficiente pra pagar seis meses de aluguel num quarto barato, no pior bairro da cidade. Pois é, Jake alugou o quarto, pagou quatro meses adiantados e, com o restante da grana, comprou uma guitarra. Não era uma fender ou qualquer outras dessas famosas, mas mesmo assim era uma guitarra.

Neste ponto devo esclarecer que Jake era por demais inteligente. Aprendera a tocar violão com os amigos do pai, ainda criança. A flauta transversal, aprendeu a tocar na banda da cidade, quando tinha dezesseis anos. Só havia uma coisa que ele não conseguia fazer: cantar.

Jake jamais aprendera a modular bem o suficiente a voz. Quando cantava, qualquer canção, por mais cômica que fosse, parecia terrivelmente melosa, triste. Ele só sabia usar a voz normal, de conversar, ou essa arrastada. Mas devemos lembrar que Jake perdera o grande amor de sua vida há pouco tempo. Isso serviu pra transformá-lo em um legítimos blues man.

Já foi dito em algum lugar que para se tocar o verdadeiro blues tudo o que se precisava fazer era se apaixonar por uma garota, perder essa garota por algum motivo, encher a cara de uísque barato e pegar uma viola. Foi isso que Jake fez. E o fez bem. Muito bem. Logo, tornou-se extremamente popular, bem pago. Mas ainda assim sofria por June.

Os anos foram passando. June saiu da cidade, foi estudar fora. Jake continuou com sua carreira, de barzinho em barzinho, até abrir o seu próprio. Um barzinho diferente, esse era o nome e era o que ele era. Jake, claro, teve dúzias de outras mulheres ao longo desses anos, mas jamais amou nenhuma como amou a June.

Numa noite qualquer de um dia ordinário, após tocar em seu barzinho something dos Beatles, Jake a viu. Não, não me perguntem quem foi que ele viu, eu não sei. Mas sei que ele acha que viu. Na seqüência, tocou while my guitar gently weeps, do mesmo grupo. Não terminou a música. No meio do quinto verso (I don’t know why, nobody told you, how to unfold your love) ele parou de cantar, olhou pra baixo e disse ao microfone, “merda”, largou a guitarra no chão e saiu, pra espanto geral da clientela.

Depois disso, o que se sabe é que Jake pegou seu carro e partiu. Dizem as más línguas que passou em casa, deu um beijo na mãe, outro no pai e depois partiu. Outra versão da história diz que ele parou na porta da antiga casa de June, desceu do carro e começou a gritar pelo nome dela, dizendo que a amava. Mas isso são apenas especulações dos habitantes locais.

O que se pode afirmar com certeza é que Jake sumiu a aproximadamente dois anos e não deu notícias. Pelo menos, não até ontem. Hoje recebi um cartão-postal (será que ele nunca ouviu falar em fotografia digital e e-mails?) dele. Segundo o que consta no cartão, ele achou June pouco tempo depois que partiu. E não achou mais ser impossível ficar com ela. Eis o texto do cartão:

Caro Paracelso, escrevo pra avisar que estou bem. Reencontrei June numa cidade próxima daí. Conversei com ela, começamos a namorar. Casamos e nos mudamos para _______. Você deveria vir aqui. O cheiro do mar é bem agradável. Deixei de cantar e hoje, junto com June, administro nosso restaurante. Esperamos visitas.

Jake & June

P.s.: esperamos que nos visite logo, antes do nascimento de Sara, nossa primeira filha.”

E é isso. Jake desistiu de uma vida boa, de ter uma mulher diferente na cama toda noite que quisesse pra ficar com aquela menininha sem graça, cheia de sardas. Vai ter uma filha. Mora numa cidade litorânea e provavelmente está gordo. E ainda se acha feliz. Enquanto isso, eu fico aqui, tendo que relatar isso, simplesmente por não ter restado com quem beber…

– Paracelso de Antígona

desejando um pouco de calor

humano numa noite gelada

Publicado em: on Sábado, 26/Julho/08 at 5:37 pm Comentários (4)
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Ressureição e Morte de João 8

DOS ARQUIVOS DE BIGODE:

“Aquele que está quase morto ainda vive, mas quem está quase vivo já morreu”. Não sei de quem é a autoria desta frase, mas ela com certeza serve para descrever o estado em que se encontrava aquele que um dia se tornaria um dos meus melhores amigos quando o conheci. Quase vivo. Morto. Sem norte. Assim se encontrava João 8 (grafado assim mesmo, sem aspas, hífen ou qualquer outro sinal gráfico).

Conforme o que o próprio me contara, além de relatos de amigos e parentes próximos (Nial, Martelo – também conhecido como Canela – entre outros), João 8 morreu – fracionou-se, como ele prefere referir-se a esse fase – cerca de quatorze anos atrás. No dia em que descobriu que Eleinad partira, provavelmente para sempre, de sua vida.

Aqui cabe uma pequena observação pessoal minha: João 8 começou seu processo de fragmentação meses antes do fato em si. Tanto que poucos dias antes da referida partida, a pessoa citada disse com todas as letras amá-lo (“levei uma surra de meu pai uma vez porque disse que queria namorar contigo”) e nosso colega, ao contrário do que faria hoje, permaneceu mudo, calado, sem palavras, sem nenhum chiste jocoso. Apenas soltou a mecha de cabelo que segurava e a olhou, em silêncio. Ela, claro, o olhou e achou-se não correspondida. Foi embora sem nada falar. Quando João 4 (sim, ela já se começara a se fracionar nessa época) percebeu que deveria falar algo, três dias depois, soube que já era tarde: Eleinad, assim como seu irmão Niel, já tinha ido embora, em direção ao Oeste, algo que o mesmo convencionou chamar de Portos Cinzentos em alusão ao Senhor dos Anéis.

Quando o conheci, pode-se dizer que ele já era João 2. Quase morto. Um homem agarrado a uma paixão impossível há mais de sete anos. Nessa época, ele se tornara quase uma máquina, um ser totalmente racional. Alguém que quando perguntado o porquê de nunca ser visto sorrindo respondia que assim não fazia porque não havia motivos. Alguém que se questionava coisas como “Por que a soma dos quadrados do cateto é igual ao quadrado da hipotenusa, mas essa não é igual à soma dos catetos? Por que dois quadrados, ao se somarem, formam um ‘retângulo’, um número que não é necessariamente quadrado?”, entre outras asnices. Alguém, cujo único sinal que dava de um dia ter sentido algo era a predileção pelo poema Anabel Lee, de Edgar Alan Poe. Enfim, alguém chato pra cacete.

O que importa é que acabamos nos afeiçoado a esse ser de estranha figura. Assim, Nial, Martelo, Galeto e eu resolvemos fazer o impossível: elevá-lo novamente à quarta potência. Ressuscita-lo. Transforma-lo novamente em João 8.

Claro que não sabíamos que o motivo era falta de mulher. Até suspeitávamos, mas não sabíamos. Para ter essa certeza, tivemos que investigar pesadamente durante quase um ano. Martelo o levava pra beber, pra ver se o homem falava. Não adiantou. Ele sorvia o líquido em completo silêncio. Nial leu toda a vasta coleção de quadrinhos que o mesmo possuía. Percebeu apenas que as revistas mais cuidadas eram as mais tristes, mais melosas. Galeto o provocava com piadas infames até o que achávamos ser o limite de sua paciência, mas o mesmo jamais reagia. Eu fiz um estudo de lingüística, aprendi a decifrar hieróglifos e ideogramas. Só assim pra entender a garrancheira que o rapaz escrevia. Reunimos tudo que sabíamos (o que era bem pouco) e levamos pra Mosha analisar.

Mosha era um ser estranho ao nosso círculo. Surgiu do nada, acompanhado do Demo, mas provou ser de valor e o deixamos ficar. Mosha era especialista em desperdiçar tempo na internet com coisas inúteis: invadir computadores alheios só pra frescar, criar scripts para Mirc (dizem que ele contribuiu, em um de seus dias gays, para a criação do scoop script), jogar RPG de uma maneira que fazia ninguém querer mais jogar com ele, entre outras coisas. Fora que era expert em contar vantagem. Por isso recorremos a ele.

Mosha pegou todos os dados esparsos que tínhamos e os compilou. Além disso, fez uma vasta pesquisa (google?) sobre nosso amigo. Enfim, Mosha se pronunciou de uma forma que tive que anotar:

- Amigos, após uma longa e exaustiva pesquisa, análise de fatores e tudo o mais, eu descobri a equação fundamental de João 8. Mas ela não fazia sentido. Era uma aberração, matematicamente falando. Era como se A+B fosse diferente de B+A, entendem? Não fazia sentido. O que quase me deixou louco. A equação tinha como resultado uma certa Daniele, mas isso ia de encontro a todo o resto da pesquisa que desenvolvi. Como eu disse, estava ficando quase louco. Aí resolvi realmente ficar louco. Fumei meu cachimbo de ópio. Cheirei pó. Misturei fanta com coca e bebi. Só então, completamente chapado, percebi a solução e quase morri de rir: “Daniele”, é, na verdade, “Eleinad” escrito de trás pra frente, o nome de uma ex-vizinha dele.

Isso, claro, nos deixou aliviados. Sabíamos o motivo de sua divisão. Bastava inverte-lo e ele voltaria a se multiplicar. Mas nem Aquele que Tudo Sabe (google) sabia do paradeiro de Eleinad. Como não podíamos trazer a original de volta, a única saída seria criarmos uma. E para isso tínhamos Mosha.

- O processo é simples. – começou nosso amigo – Sabemos o que atraiu João 2 no passado. Basta recriar um perfil baseado no anterior. Uma Eleinad 2.0, se preferirem. Eu crio o programa, não exatamente uma réplica, pois a cópia só nos faz lembrar que o original é sempre melhor. A “Eleinad 2.0” será apenas baseada na primeira, com novas qualidades e alguns pequenos bugs, que, se o for o caso, será corrigido via patch de atualização pra 2.1. Crio o programa, tipo um worm e o solto na net, num canal de IRC que ele freqüente. O programa invadirá uma máquina, criará um padrão de luzes aparentemente aleatórios na tela que, através da retina da usuária da máquina, será transportado para o cérebro da mesma, alterando sobremaneira seus impulsos eletromagnéticos, o que a fará se comportar de modo análogo ao desejado.

“Então – comecei a falar – iremos alterar a personalidade de alguém pra que nosso amigo se apaixone, seja correspondido, esqueça a Eleinad e volte a ser o João 8 de que ouvi falar? Ora, o que estamos esperando, Mosha?”

E assim foi feito. O vírus infectou uma tal de Esterana em meados de novembro. Eles se conheceram pessoalmente, se apaixonaram e começaram a namorar no fim de Janeiro. E, a cada dia que passsava, víamos João 2 aumentar, não exponencialmente, mas, mesmo assim, aumentar. Um dia ele chegou novamente a ser João 8. Pena que o programa realmente estava bugado. Com o tempo, tornou-se obsessivo, possessivo. O que levou João 8 a dividir-se novamente. E desta vez, de maneira bem pior. A divisão acabou tornando-o João ½. E assim ele morreu novamente, tornando-se nada mais que um corpo sem alma, um ser que se movia, um amante desinteressado (pois mesmo estando morto, João 8 ainda era melhor que muitos outros vivos), um leitor medíocre, um pinguço.

Eventualmente, João 8 iniciou sozinho seu processo de recuperação, mas essa é outra história e não sou eu que vou contá-la.

– João Octávio
João 8, Nial e Martelo criados por ShadXen.
Todos os outros personagens criados por mim.
Essa história, como sempre, é ficcional, embora
baseada em fatos reais.

Publicado em: on Sábado, 19/Julho/08 at 1:02 am Comentários (2)
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Rimar? Amar?

Eu não sei rimar,
métrica nunca usei.
Eu só sei amar.
Eu não sei rimar,
embora à tua beleza quisesse cantar.
De brincar com as palavras já cansei,
eu não sei rimar,
métrica nunca usei.

– João Octávio
Tentando fazer um triolé que preste

Publicado em: on Domingo, 13/Julho/08 at 5:20 pm Comentários (0)
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The Tiger (O Tigre)

The Tyger

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare sieze the fire?

And what shoulder, & what art.
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? what the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp
Dare its deadly terrors clasp?

When the stars threw down their spears,
And watered heaven with their tears,
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger! Tyger! burning bright
In the forests of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

by William Blake

(tradução)

O Tigre

Tigre, tigre, viva chama
Que as florestas da noite inflama
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas ousou ele o vôo?
Que mão ousou pegar o fogo?

Que arte & braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo
Que mãos e que pés horrendos?

Que cadeia? Que martelo,
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? Que tenaz
Pegou-lhe os horrores mortais?

Quando os astros alancearam
O céu e em pranto banharam,
Sorriu ele ao ver o seu feito?
Fez-te quem fez o cordeiro?

Tigre, tigre, Viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou imortal mão ousaria
Traçar-te a horrível simetria?

trad.: José Paulo Paes

Nota: Apesar de não ter sido eu o tradutor, acho que que “fearful symmetry” deveria ter sido traduzido como “terrível simetria”, já que este trecho é assim traduzido em vários locais quando citado. Mas traduções dependem sempre do tradutor e ninguém mais.

trecho pra um texto maior…

EX-: sufixo que na verdade o radical de todo o mal que me asfixia.

Publicado em: on Domingo, 6/Julho/08 at 12:28 am Comentários (0)

versos que não deveriam existir…

Queria que as coisas fossem diferentes,
queria poder ficar com ela pra sempre.
Mas a vida não é feita de ilusão.
Vou morrer na solidão.

Ah, ela me fez tão feliz…
Em seus braços a vida parecia ter sentido…
Pena que Deus assim não quis.
Sinto meu coração partido!

O sabor de seus beijos,
o calor de sua pele…
Sem eles, nada a viver me impele!
Hei de padecer por tais desejos?

xxxxx

Aqui estou, de joelhos,
sem máscaras ou personagens pra me esconder por trás.
Aqui estou, de joelhos,
com uma dor que é só minha e de ninguém mais.

– João Octávio
querendo se afogar no fundo de um copo…

Publicado em: on Sábado, 5/Julho/08 at 3:06 pm Comentários (2)
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